segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Fenixiniando-me termino esta história.



No livro da vida, as histórias não têm fim. Mas o narrador, em completa sensação de poder sobre aquilo que escreve ou fala, por vezes dita o encerramento. Muitas vezes o fim é acompanhado de dor. Noutras, profundo prazer. O que se sente é baseado sobretudo na capacidade de como lida em seu interior com aquilo que narra.

Nesta história a qual narro agora o fim misturam-se ondas de prazer e dor, sem uma definição completa de ser um ou outro. Percebo que, quanto menos determinados e quadrados são os sentimentos relatados e sentidos ao narrar, mais próximos ficam das linhas da vida, que são, na verdade, anti-lineares, obtusas, circunflexas.

Escreveu Norman Cousins que a tragédia da vida não é a morte, mas aquilo que morre dentro de nós enquanto vivemos. De fato, o que menos é importante nesta história é a morte de Pedro devido ao veneno do fruto sedutor. Tampouco a tragédia de como morreu aos poucos, célula a célula. Creio que o marcante nesta história seja a transformação de Pedro em René, e as sucessivas transformações que originaram Pedro, René e todos os outros que virão a ser escritos no livro da vida dessa existência.

A vida exige a todo momento a força da Trimurti, sob Shiva e a destruição; Brahma e a criação; e Vishnu e a manutenção. E a reencarnação da alma sucessivamente é marcada pela destruição, criação e manutenção de sentimentos, crenças, ações pelo indivíduo - mesmo sem alcançar, de fato, a morte do corpo. Ainda em vida, há muito que nasce, mantém-se ou morre. E é aí que se define a não-linearidade da vida, que segue a inconstância desse dinâmico ciclo fenixiniano.

"Sei que mal cheguei e já digo adeus. Há frutos que provamos os quais inevitavelmente têm estampados em sua casca a certeza da morte. Muitas vezes, provamos deles mesmo sob o risco, pois sua sedução supera o prenúncio. Esse veneno é insuportável. Aperta o peito, faz arder mãos e pés, tonteia o corpo e espreme a cabeça. Acompanha por vezes euforia quando o vejo novamente e sinto o perfume, a beleza da cor, a perfeita textura. Mas a dor daquilo que morre por dentro ao prová-lo é maior e certamente insuportável a qualquer vivente. E aceito aqui o que há para essa história: seu fim. Meu fim. O fim deste fruto que eu não devia ter provado."

Essa dança da vida, cíclica, define o que disse Rosa Luxemburgo: "Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem." As flores, frutos, sentimentos e vivências podem nos afugentar em gaiolas ou fazer-nos alcançar voo, mesmo que sofrido pelas perdas que sentimos quando abandonamos o ninho. E assim, sentindo as correntes que nos prendem, no movimento da vida sente-se o que deve se superar para alcançar o voo desejado. É a força de Brahma criando um novo ser, transformando Pedro em René e permitindo a continuidade desse ciclo.

De fato, o juiz tinha a razão. Do alto, com sua toga, face robusta e rude, com ar de sabedoria e ao mesmo tempo repressão e poder, ele deu a sentença: "Esta história está acabada." E eu, vivente e narrador, tentei contorná-la, naturalmente seguindo os movimentos da vida. Anti-linearmente, não terminei naquele momento a história, mesmo com o decreto judicial. Feito um tolo, com pouca maturidade perante as peripécias que a vida nos submete, arrisquei dando voltas e cheguei ao mesmo lugar, onde o fim é inevitável. Que me resta se não me resignar?

Não, resignar, jamais. O juiz tinha razão, não haveria outros capítulos nessa história. No entanto, a mudança é essencial para fazer perene o ciclo da vida. As próximas histórias deverão trazer outras tramas. Que graça há no escritor que sempre narra o mesmo, ainda que com personagens diferentes, lugares diversos ou linguagem variável? A transformação é inevitável ao escritor, assim como é para aquele que vive.

Fenixiniando-me termino essa história. Sinto dor, porque a fagulha de uma paixão sempre traz a esperança de um grande amor. Mas sinto prazer, pois a brasa que toca a pele uma hora machuca tanto que devemos definitivamente nos afastar. Não digo que seja um fim eterno. Sabe-se lá o que fica ou o que vai na eternidade da vida. Mas é um fim ao menos momentâneo, para gerar novos começos, novas esperanças, novos sentimentos, vivências. Mesmo que as flores e frutos ainda estejam aqui no peito, finalizar essa história traz a este narrador um vigor poderoso em sua decisão. Qual desenrolar terá ela fora das letras, já no âmbito da vida, pouco pode saber, mas aqui e agora parece sublimado o que ocorreu. E do passado restam as memórias, do futuro alimentam-se as esperanças, no agora o que importa é a sublimação.

Este texto faz parte de uma série. Para conferir os demais, acesse:
As flores que cativamos. - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/as-flores-que-cativamos.html
A Sentença - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/a-sentenca.html
O Fruto - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/o-fruto.html
Fenixiniando-me termino esta história. - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/fenixiniando-me-termino-esta-historia.html