sábado, 25 de janeiro de 2014

O Fruto



Tolo o juiz que julgou como terminada esta história. Nas páginas da vida, a narração não tem um fim, até mesmo com a morte de seus personagens principais. Jung citou que tudo depende de como vemos as coisas, e não de como elas são. De fato, pouco sei o que foi ou o que deixou de ser nesta história - tampouco o que será! Os sentimentos agem ora como forças propulsoras, ora como barreiras - inclusive de visão. Mas relato aqui o que vi acontecer.

Pedro é uma daquelas pessoas que, como disse Freud, são feitas de carne, mas têm de viver como se fosse de ferro e que poderia ser muito melhor, se não quisesse ser tão bom. Sustenta em seus braços o peso do mundo e abraça todas as causas e ideias que prometem resolver os males da humanidade. Acredita em uma mudança efetiva na sociedade, a qual resultaria em felicidade e crescimento interior para os seres humanos.

Caminhava com um amigo por um campo mórbido, onde pelo chão estavam almas sedentas e famintas - de sonhos, esperanças, amor, liberdade - e pelo alto mal se via o que lá havia. Não havia felicidade nesse caminho, tudo era escuro e cinzento, ofuscava-se o amarelo, verde, azul e qualquer outra cor que se conheça longe das tonalidades neutras. Solicitou ao amigo passos rápidos, pois depois dessas campinas alcançariam bosques vivos e frutíferos. No entanto, nessa caminhada apressada, algo caiu na cabeça do amigo. Pedro riu da situação junto ao parceiro. Iam seguir a viagem, mas olhou melhor para o que havia caído.

Era um fruto. Sua casca era rubra, brilhosa, dava para sentir pelos olhos seu sabor adocicado e isso fez Pedro salivar. Mesmo vivendo como se fosse de ferro, feito de carne precisa de alimento para sobreviver, sobretudo desse tipo tão atraente. Seu amigo fez pouco caso para essa admiração e falou para parar de bobeira e seguirem adiante pelo caminho - mesmo que preferisse ficar dando voltas e voltas nesse ambiente mórbido, que o agradava. Não, havia uma vida saborosa para provar em meio a tanta tristeza, desolação e morte. Pedro não conseguiria seguir adiante sem provar o fruto. Pegou-o em suas mãos. Sua textura o fez salivar novamente. Sentiu seu sabor adocicado pelo toque, liso e sedutor.

Por algum motivo, daqueles que costumamos chamar regidos pelo destino ou pela sorte, Pedro não provou do fruto naquela noite. Acampou com o amigo no local e esperaria pela noite seguinte para seguir adiante. Durante o dia, acordou com o Sol forte, que iluminava a ausência de cor do ambiente. Não se controlou. Tinha de provar o fruto. Com a convicção do sabor adocicado, deu uma grande mordida. E sentiu de uma só vez a amargura da desilusão e da decepção. De fato, era amargo. Pior: mórbido. Fétido. Apodrecido. Cuspiu no chão o que havia mordido e logo as almas cercaram os pedaços cuspidos e atraiam-se por eles.

Pedro passou alguns dias doente. Não respirava direito, seu coração batia acelerado, suava, sentia frios na barriga, estava estressado, perdeu as esperanças de ver algum lugar mais vivo do que aquele em que estavam. Estava envenenado pelo fruto. Seu amigo colocou seu braço por sobre seus ombros e foram juntos, caminhando devagar rumo aos bosques vivos e frutíferos. Após algum tempo - o que pareceu muito, para alguém que estava doente -, chegaram ao local desejado.

La estavam seus melhores amigos. Um trouxe água para matar-lhe a sede. Outro trouxe palavras de conforto, explicando que a doença também faz parte do ciclo da vida. O curandeiro trouxe o remédio. Tomou ligeiro aquele líquido que parecia um purgante e logo respirou a vida novamente.

Não houve mais uma noite com o fruto, como esperava, mas alcançou a vida. E nela a história se perpetua, sem um fim por conta de uma experiência frustrante e mal sucedida. Ela continua... enquanto a vida continuar a ser eterna.

Este texto faz parte de uma série. Para conferir os demais, acesse:
As flores que cativamos. - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/as-flores-que-cativamos.html
A Sentença - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/a-sentenca.html
O Fruto - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/o-fruto.html
Fenixiniando-me termino esta história. - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/fenixiniando-me-termino-esta-historia.html