quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Há esperança.
Era uma vez - sim, era uma vez, pois deste ser que irei narrar hoje só resta esta história - um pequeno boneco desenhado em um pedaço de papel. Fora desenhado por uma criança. Era já a décima tentativa de desenhar seu amigo imaginário. Era bonito esse boneco, para um desenho de palitos em um papel feito por um infante.
A criança se perguntou como desenharia a alegria do amigo e fez nele um grande sorriso. O amor e dedicação plantou nos olhos grandes e brilhantes, e num discreto, porém gordo e presente coração que transpassava a roupa do boneco. O companheirismo ficou por conta de um outro amigo, que ainda não fora apresentado - e nem nunca acabou sendo -, de mãos dadas ao boneco do imaginário colega. A felicidade do menino desenhista estampada ficou no forte sol amarelo-alaranjado e o conforto que sentia com o amigo retratou nas campinas verde-claras com algumas flores e no céu azul com nuvens em forma de algodão.
Estava pronto o desenho. Meu querido amigo, pensou o criador, ficaste exatamente como eu te imaginava! Agora me farás companhia sempre que precisar. Vou te carregar no bolso e...
E a mãe do rapaz o chamou para ir jantar.
Esqueci de contar: era inverno e havia sido acendida a lareira para se esquentar o interior da casa. O comodismo do calor emanado da lareira contrastou, no entanto, com a fúria de sua brasa, pegando fogo e explodindo sua raiva interior.O carvão um dia já foi uma grande árvore, com um tronco forte e juvenil, inúmeros ramos e galhos de onde suas folhas verde-escuras brilhavam sob a luz Solar e sob os quais ficavam suspensos alguns frutos de cor rubra. Acumulou a força que empreenderam ao cortar seu tronco, separá-lo de suas folhas e frutos, e, por fim, a energia enegrecida que tirou a vida da árvore e a fez carvão.
A lareira gritou "Não há alegria" e uma de suas brasas atingiu o sorriso do nosso querido boneco. "Hoje? Duvido amor e dedicação nesse mundo" e queimou os olhos do amigo imaginário. "Companheirismo é para os fracos! Aos fortes é reservada a manipulação, o uso das coisas e pessoas conforme for o desejo do manipulador" e queimou o colega de mãos dadas ao boneco. "Felicidade... Como haver felicidade com tanta desgraça? A felicidade é uma mentira!" e queimou em uma tacada só o grande e poderoso Sol desenhado pelo menino. "E nesta merda de mundo, em que não há alegria, não há amor, companheirismo, sequer felicidade. NÃO HÁ CONFORTO! Mentem os que o dizem possuir" e queimado foi do desenho o céu e as campinas. "Não há vida", decretou a lareira com suas brasas e neste momento já estava quase toda a casa incendiada.
O criador, a criança, então, correu em busca de sua criação, o boneco amigo imaginário, e lá encontrou apenas um coração pequenino, mas gordo e ainda presente - e pulsante -, e o agarrou com delicadeza, pois agora frágil estava, e, em posição de prece, balbuciou: "Há esperança". E os dois queimaram, juntos, na alegria do menino ter encontrado ainda um resquício de sua criação, em um claro gesto de amor e dedicação, digamos também de companheirismo, e morrendo, assim, feliz e confortado por não estar sozinho, já que a mãe a qual o havia chamado para comer também não existia - nem um pai, nem um irmão, nem uma família. Queimaram todos juntos - o criador, a criação e a brasa da lareira - e somaram-se ao pó da casa, dos lápis que o menino utilizou para desenhar e pintar, dos projetos abandonados do boneco, papéis esses que no lixo estavam jogados. E o pó seguiu o rumo dos ventos até chegar a este escritor, para contar a sua história: há esperança até no último suspiro, mesmo que ainda assim esteja sozinho.
