quarta-feira, 27 de junho de 2012
Meu anjo, não vá.
À minha volta, a escuridão. Vêem-se raios partindo de minha alma. E minha alma escurecendo. Do centro do meu corpo, pulsa uma luz multicolor, como fosse um coração, ou uma fonte - e ela não cessa, embora esteja escurecendo. Não sei para onde vai toda minha energia, não sei por que simplesmente aqui parado estou, por que não assumo o controle daquilo que é meu. Quem é capaz de ver-se morrendo e nada fazer para que viva? Talvez porque saiba e aceite que o preço de toda e qualquer vida seja a morte. Mas haverá morte da alma? Será possível não haver um lugar onde haja só a vida? Talvez seja por isso que vivo sempre morrendo - e morrido não tenha ainda.
Vi um sorriso e um olhar brilharem na escuridão. Eles deram voltas em mim, e em espiral chegaram a me envolver. Um abraço querido, um beijo desejado, sexo envolvente, amor flamejante, desamor sofrido, esquecimento inevitável. Será meu destino viver aqui sozinho, com raios de mim emanando para sabe-se lá onde? Sem poder pulsar para alguém que pulse para mim também? E que dois corações, duas luzes formem-se uma mais potente, que pulsem juntas... que dois sejam um. O sorriso e o olhar partiram, e eu fiquei... fiquei só aqui, no meio da escuridão.
Pensei ter de viver novamente, eternamente, a dor da solidão, esse vazio aqui em meu real coração, e não aquele que pulsa, e pulsa, e pulsa, e dá a vida. Sofri dias e dias nesse escuro, pensando ter de viver sem ninguém, que eu não poderia ser útil a alguém e com essa pessoa ser feliz.
As mãos... as mãos que eu conheço voltaram a iluminarem-se. E você veio, suas mãos, seus olhos, nariz, sorriso, cabelo, tudo que eu já conheço de outro tempo, de um outro instante da vida, de uma outra existência remota - e nem tanto assim, quem sabe -, não sei como será agora em nosso reencontro. Quero curtir nossos momentos! Preciso continuar a tê-los, pois só assim estarei em paz com meus sentimentos... Não quero perdê-lo, fique! Fique! Fique, há muita conversa para botar em dia.
Um anjo, velho amigo, enfim voltara ofertando suas mãos. Suas mãos brilharam no meio da escuridão e seu corpo se resplandeceu, era um lindo anjo conhecido, jamais esqueceria dessas mãos, desse olhar, desse sorriso. Meu coração pulsa mais forte em sua presença, e a palavra que sai de sua boca fortalece o meu espírito. E quando eu falo, não vomito nesse vazio escuro, mas fortaleço a alma desse anjo. E nossas almas se fortalecem, e brilham, e eu não estou sozinho, estou contigo.
Contigo não há raios saindo de mim, há um único raio: unindo-nos. E como fazer, meu anjo, para que eu não venha perdê-lo? Os raios que antes eram sugados de mim agora nos rodeia. E como proteger-nos?
À minha volta, a escuridão. Vê-se um raio partindo de minha alma. E minha alma se iluminando, irradiando. O que devo fazer para que não volte a escurecer? Como provar que há vida mesmo na morte, e que a morte não é, portanto, a única certeza da vida? Como manter esse amor, e não findá-lo em desilusões e desamor? Cansei da solidão. Cansei de ferir e ser ferido. Hei de iluminar-me. Desejo que nos iluminemos. Não vá embora, meu anjo, preciso de você e farei o possível para que eu seja bom para ti.
Iluminemo-nos, e que essa escuridão um dia seja nossa morada de luz.Vamos morrer vivendo - mesmo que mortos nunca estaremos. Ou ao menos é o que eu desejo: morto, nosso amor nunca estará. Não vá... não vá!
