segunda-feira, 5 de novembro de 2012
A Dissecação dos Sonhos
Cansei. Mais uma noite de pesadelos. Sou estudante de Medicina do segundo ano e neste semestre iniciaram as práticas de dissecação dos cadáveres em Anatomia. Já me enojava e arrepiavam as aulas sobre o corpo humano mesmo sem ter que cortar os rígidos, porém sensíveis - embora já mortos - tecidos daqueles corpos. Desde que isso começou, passei a ter pesadelos recorrentes sobre cadáveres.
Do meu primeiro sonho eu jamais me esquecerei. Estava em uma praia deserta, que abrigava uma grande fábrica. Era noite e eu e uma colega fugíamos de algo monstruoso que nos perseguia. Em dado momento do sonho, minha colega sumiu e eu passei a correr e me esconder sozinho. É quando me deparo com um cadáver sem pele, só com músculos e demais estruturas aparentes, e pego em sua mão para que fugíssemos juntos. De repente, eu o pego em meu colo e parece que eu estava roubando-o de algum lugar, e não mais que estivéssemos juntos nessa. E, por fim, eu era o cadáver, mal conseguindo fugir. Então, eu acordei.
Deste pesadelo de hoje, eu não lembro mais, mas recordo-me que também era relacionado a esses corpos inanimados. Acordei com uma sensação ruim, típica daqueles sonhos os quais suscitam sentimentos perturbadores. Contudo, já logo fui tomar banho, comer meu desjejum e seguir a rotina de sempre.
Tendo em vista que foi uma noite muito mal dormida, na aula noturna eu acabei dormindo sentado. Quando acordei, estranhei, pois não tinha ninguém mais na sala, as luzes estavam apagadas e o único som que dava para notar era do vento, fazendo bater nas janelas de vidro alguns galhos dos pinheiros, e das corujas. A porta da sala estava encostada, e meu material não estava mais ali. Achei tudo muito estranho, sem sentido, mas não demorei a ir à porta, para sair logo daquele local inóspito.
No corredor, tudo estava naquele mesmo clima: luzes apagadas, barulho do vento e dos animais da noite. Confesso que saí correndo lentamente em direção à porta de saída do centro de ensino. Quanto mais perto dela chegava, no entanto, eu ouvia cada vez mais claramente um som que parecia ser de rádio. Pensei: o segurança, com certeza. Então, acalmei-me e respirei mais tranquilamente, passando a caminhar mais devagar. Eu nunca tinha notado como era grande esse corredor.
Quando o som começava a atingir o pico de sua intensidade, percebi que não era da sala do zelador que vinha ele, mas do laboratório de anatomia. Parei. Senti um profundo arrepio. Pensei: mas que bobagem! Deve ser algum mestrando ou doutorando com suas pesquisas. E voltei a caminhar, ainda assustado. Comecei a sentir uma leve dor de cabeça e a fraquejar. Apressei o passo. A dor e a astenia ficavam cada vez mais intensas. Cheguei ao lado do laboratório de anatomia. Apaguei.
Quando acordei, ia coçar meus olhos para os abrir, já que a luminosidade do ambiente estava alta, mas não consegui. Meu coração deu um tumtá isolado e mais forte que o comum e minha respiração deu uma ofegada rápida. Por que diabos eu não conseguia mexer nenhum dos meus braços? Abri, com dificuldade, meus olhos, após algumas tentativas frustradas. A luminosidade alta era de uma luminária colocada exatamente acima da minha cabeça, a qual também estava imóvel, mas meu pescoço estava levemente erguido, de forma que eu podia ver grande parte do meu corpo. Com dificuldade, consegui ver a brancura do teto e das paredes a minha frente. Quando percebi que estava em uma espécie de maca, assustei-me ainda mais do que já estava. Será que eu tive uma convulsão? O que é isto, um hospital? O que está acontecendo? Parei de refletir e voltei a olhar para meu corpo, na tentativa de encontrar alguma resposta material para minhas perguntas. Não havia nada de errado. Eu estava praticamente por inteiro coberto com um lençol branco, sem sujeira, sem sangue, sem nada.
De repente, voltei a ouvir o som de rádio de antes, o qual aumentava de intensidade aos poucos. O que é isto, pensei. O som lembrava aqueles rituais satânicos que se vê em filmes. Palavras que eu não conseguia decifrar eram pronunciadas em grave forte, até que, no pico de sua audição, pararam. Ufa, pensei. Aquilo estava me deixando ansioso.
Desesperado, no entanto, fiquei para valer quando, ao redor do meu corpo, surgiram sete vultos enegrecidos. Não dava para ver bem quem eram ou o que eram. Pareciam apenas vultos escuros, tipo uma fumaça negra condensada. Eu queria me mexer, sair correndo dali, mas não conseguia. Meu coração batia forte, eu já sentia falta de ar e transpirava muito. Não conseguia, de jeito nenhum, me mover. Comecei a chorar - o que mais eu podia fazer? Para piorar, os vultos estavam ali, inertes, sem fazer nada, apenas parados ao meu redor.
Fechei meus olhos e, num ato de desistência total do que estava por vir, comecei a fazer uma oração. Senti uma dor enorme na cabeça logo ao começá-la, e uma rigidez absurda por todo meu corpo. Abri meus olhos. Os vultos, todos ao mesmo tempo, abriram suas bocas e começaram a dizer, um por um: "Morte", com um grave intenso, feito monges tibetanos. Parecia um mantra. Nesse momento, eu já pensei: acabou, não há mais o que fazer, seja lá o que for isso, vou morrer. Então, eles pararam de falar e o som do rádio, com dizeres em outra língua, voltou a tocar, quase me ensurdecendo.
Um dos vultos começou a erguer algo que parecia um de seus braços, trazendo-o na direção do meu braço esquerdo. Outro, do outro lado, fez a mesma coisa, vindo em direção ao meu braço direito. De repente, meus braços, que antes imóveis estavam ao meu comando, começaram a se mover animados pelos vultos negros, eu conseguia sentir. Eles saíram um pouco do meu foco de visão, mas senti cada mão agarrando um objeto frio, textura uniforme - um metal. Calçaram este objeto em uma das mãos, era uma tesoura. Na outra, pegaram feito uma caneta, era um bisturi. O lençol que me cobria foi rapidamente puxado por algo que parecia um vento. Voltei a ver minhas mãos e confirmou-se o que havia sentido pelo tato: em uma, a tesoura; em outra, o bisturi.
O bisturi encostou em minha pele, na altura do esterno e perpendicularmente às costelas. Eu não acreditei mais, era irreal. Eu estava começando a dissecação do meu próprio corpo. E, com um movimento rápido e ao mesmo tempo delicado, abri a pele de meu tórax da altura do manúbrio até o processo xifoide. Em seguida. O sangue começava a escorrer, em alguns pontos jorrava fracamente. Desmaiei.
Quando acordei, tinha uma roda de colegas ao meu redor, alguns chorando, outros gritando por ajuda. Deu para ver meu professor na frente da sala sem saber o que fazer. Eu estava sentado na sala de aula, conforme tinha dormido anteriormente, mas minha camiseta estava toda ensanguentada, tirei-a rapidamente. Vi uma marca de cicatriz recente semelhante ao corte que descrevi acima em meu peito. Como isso tudo? Fora um sonho. Mais um pesadelo, mas este com uma incrível capacidade de envolver o imaginário no real. Me deixei cair em lágrimas, ninguém ao meu redor sabia o que fazer - todos estavam tão assustados quanto eu, pois tudo isso acontecera instantaneamente, para eles o tempo não havia passado, não havia pesadelo, não havia nada, só um colega de classe que estava dormindo e de repente começou a ficar todo ensanguentado.
Respirei fundo, enxuguei as lágrimas. Olhei para a janela, para me confortar com a paisagem da natureza. Vi o Hospital, vi os pinheiros, olhei para o céu, hoje bem estrelado, lindo. Enfim, me acalmei. Falei para todos que eu estava bem, e comecei a guardar meu material, para ir para casa, já que a aula naquelas condições não continuaria. Quando fui abrir a porta, ouvi um fraco som de rádio, meu coração bateu forte. Tomei coragem e abri logo a porta para finalmente sair deste local tenebroso. Um vulto a minha frente, exatamente a minha frente, apareceu. Eu desmaiei.
Acordei em minha cama, sem cicatriz, sem sangue, sem vultos, sem nada. Somente aquela sensação terrível e perturbadora de ter tido um pesadelo. Como pude ter sonhado com tudo isso? Só quero esquecer.
Nota: assim como todo conto que escrevo, este muito pouco tem de realidade de minha própria vida e de minhas experiências pessoais. É claro que tudo se mistura ao escrever, mas não há aqui um relato, e sim um conto, o qual surge de inspirações com situações, sensações e até ideias sem sentido que aparecem no dia-a-dia. Neste conto, em especial, muito pouco usei da minha realidade pessoal. O primeiro sonho, que descrevi acima, de fato, sonhei, logo no segundo semestre da faculdade. De resto, nada ou muito pouco transferi dos meus próprios sentimentos e angústias. Reuni minha vontade em escrever sobre como seria se o próprio corpo fosse dissecado, por si mesmo, e relatos e histórias que vi, ouvi ou li sobre a relação dos estudantes de Medicina com as aulas de Anatomia.
