domingo, 19 de janeiro de 2014

A Sentença



Eu suava frio. Não tirava o olhar daquele homem forte, com um olhar duro, mas sorriso encantador. Todos cochichavam, e mesmo assim a aura do recinto não me distraia, eu o encarava, enviava mensagens pelo celular, ele me respondia, mas nunca era um sim ou um não, eram sempre reticências. O juiz pediu para que eu me levantasse e falasse minha versão da história. Engoli seco. Fiz pressão sobre minhas pernas, me levantei e gaguejei na primeira sílaba. Entretanto extrai do fundo da minha alma força para falar.

 - Há, na minha frente, um homem que me encantou. Sua simplicidade, sua cultura, sua inteligência, sua maturidade e sua forma de se relacionar fizeram meus olhos brilhar. Meu coração bateu tão forte, meio que arrítmico, envenenado pelo espinho dessa flor, meu sentimento. Tão forte que minha vontade era de pegar um bisturi, dissecar meus tecidos e retirar este coração, para fazer pará-lo, de tão incômodo. Eu fiquei trêmulo, andava me esbarrando pelas paredes, pois não sabia o que fazer, desorientado, sentia-me em um labirinto e todos os caminhos me levavam a ele, mas todos pareciam ter obstáculos intransponíveis. O que peço é mais uma noite. Dizem que uma dose ínfima do veneno pode ser a cura. Mesmo que doses homeopáticas possam apenas prolongar a dor e a dependência, até a elas estou disposto com a amizade, pois sob elas não alcanço a boca ou o corpo, onde o veneno está em abundância. É a dependência em apenas olhar, sem poder tomar para si. Por isso, a única coisa que peço é mais uma noite. - e então desabei na cadeira, e olhei para o homem a minha frente, desejando seu corpo encostado no meu.

 - E o senhor, o que tem a dizer? - perguntou o juiz ao homem por quem me encantei.

 - Senhor Meritíssimo, gosto muito do rapaz que está a minha frente, mas eu queria apenas sua amizade. Não queria que tudo isso se confundisse e precisaria de uma garrafa de vodka inteira para ter mais uma noite sequer com este rapaz. Dou-lhe minha amizade fiel, sincera e verdadeira e é a isso que me disponho.

O juiz, imponente e voraz, deu a sentença: Esta história está acabada. E bateu o martelo com tanta força que seu barulho e intensidade me fizeram perder a consciência por um segundo. Quando retornei a mim, já não sendo eu mesmo, gritei: Não! Não! Essa história não pode acabar assim. Há um rastro desse perfume no labirinto e eu vou segui-lo. Eu vou conquistar essa noite, não conseguirei seguir sem isso.

Este texto faz parte de uma série. Para conferir os demais, acesse:
As flores que cativamos. - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/as-flores-que-cativamos.html
A Sentença - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/a-sentenca.html
O Fruto - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/o-fruto.html
Fenixiniando-me termino esta história. - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/fenixiniando-me-termino-esta-historia.html