domingo, 19 de janeiro de 2014
As flores que cativamos.
Estou deitado e sinto um cheiro que me lembra alguém. Lembra-me uma noite. Uma história que não teve fim. Ou um fim demasiado próximo do começo. Como um simples odor, perfume que impregnou de sua pele no tecido, pode trazer sentimentos de algo tão breve e - parece ditar o destino - passageiro.
Sentimentos são como flores em um jardim: você aprecia a beleza das pétalas, vê o leve tom azulado e fica atraído para sentir seu odor. Aproxima a cabeça e o corpo, toca com a alma. Inspira fundo e alcança a plenitude, com mãos e pés levemente adormecidos, encanta-se. Cativa. Estende a mão e toma-a para si. Descobre no tocar um espinho, fazendo sangrar uma gota singela e passageira. Há espinhos dolorosos, há espinhos venenosos. Algumas são viciantes, não sei se por sua beleza e encanto, ou se por seu veneno que corrompe todo o organismo, mas ainda assim faz desejá-la para si. E as flores que cativamos por muito - ou pelo sempre - as carregamos conosco. Mesmo que as flores não sejam eternas, por vezes pegamos suas pétalas e as colocamos em livros, algumas no livro da vida, em que se tornam pó junto à efemeridade da existência.
Escrever sobre as flores não é como catalogá-las feito um biólogo. Escrever sobre as flores é escrever a crônica da vida, em linhas tornas, em frases que se conectam, mas vêm-e-vão e muitas vezes não tem um sentido - ou apenas não aparentam ter. Escrever sobre as flores é olhar-se para dentro e descrever em que órgãos, tecidos e células atingiu o veneno. É descrever o pulsar elétrico que a dor e o prazer fazem reverberar por entre as sinapses. As flores, sozinhas, são apenas flores. Mas é o olhar do admirador (ou sofredor), sempre acompanhado de desejo ou repulsa, satisfação ou sofrimento, é esse olhar que descreve o que são as flores que são recolhidas e cativadas ao longo da vida.
E falar de flores não é, por fim, apenas descrevê-las, ou sobre como foi o olhar, ou sobre quem é o admirador, ou sobre as células, sinapses. Escrever sobre as flores é, sobretudo, repensar e assimilar o que as fizeram existir. Este odor que me lembra alguém, me lembra também de uma noite - motivo de que fará com que esta flor um dia estará dentro de meu livro para pulverizar junto à minha existência.
Este texto faz parte de uma série. Para conferir os demais, acesse:
As flores que cativamos. - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/as-flores-que-cativamos.html
A Sentença - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/a-sentenca.html
O Fruto - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/o-fruto.html
Fenixiniando-me termino esta história. - http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2014/01/fenixiniando-me-termino-esta-historia.html
