Há quem diga que não há nada mais destinado que o próprio acaso. Posso dizer que há uma sorte em tudo, um norte que não nos cabe, ao menos conscientemente, decidir.
Chovia muito, o dia estava nublado e minha visão era falha pelo ambiente. Mesmo assim, quando vi a figura de alguém que amo, logo ali a minha frente, meu coração explodiu em movimento, minhas pernas cambalearam, minha mente atingiu uma outra dimensão. O que fazia ali, logo ali, no meu caminho, aquela figura tão querida por mim, mas sempre distante? Como chegara ali, e como eu não seguira outro caminho naquele dia?
Ter balbuciado palavras que só faziam sentido porque as sentenças eram previamente feitas mentalmente, Oi, tudo bom? Oi! Eu não era capaz de falar mais nada, ainda mais que ela não estava sozinha, tinha consigo alguém, quem eu não sei - e nem queria saber de fato, meu objeto de adoração é único.
Estava num reino antigo, em que o servo devia sua vida ao mestre. Eu devia minha vida a Rainha, não pelo regime da servidão, mas pelo do amor. Meu olhar era proibido, pois ser de baixa casta me impedia de cruzar meu olhar com o dela. E como era difícil não admirá-la! Tão alva, olhos vazios, mas penetrantes mesmo assim, sorriso que pede um beijo e um corpo que cativa meu abraço. Queria chegar perto, mas não era possível, pois era a Rainha.
Eu tinha meus afazeres, cuidar da saúde dos pobres idosos e dos feridos em campo. E esse ofício era de total dedicação para mim, era minha motivação maior de vida. Mesmo assim, mesmo sendo tanto, tanto para mim, não era o suficiente para completar-me. É como se eu fosse a Lua, mesmo com uma face iluminada, completa, sempre haveria a outra buscando luz. Mas eu carregava meu ofício, tratava as moléstias e dava o que meu coração havia de melhor a esses moribundos: afeto, dedicação, atenção.
Afeto, dedicação, atenção eu não pedia de ninguém, pois isso se dá de livre e espontânea vontade - mas eu desejava da minha Rainha. Desejava que me estendesse sua mão, alva, fina e macia; que cobrisse com a outra a minha; e que olhasse para mim e nossos olhares ficassem cruzados.
Certo dia, estava atendendo uma senhora muito velha, já tossindo sua própria carne, e ouvi murmúrios pelo vilarejo. Fiquei preocupado, pois eram constantes os ataques bárbaros na região, e deixei a adoentada para ver na rua o que acontecia. Era a Rainha, que naquele mesmo dia resolveu passar por onde eu tivera de ir trabalhar. E por graça do destino, olhou para mim, enquanto eu encarava-a com desejo, amor. E continuou me olhando, com seus olhos graciosos, levantou um sorriso totalmente desprovido de pudores, e estendeu-me a mão. Dei um passo a frente, pois queria tocá-la, tê-la para mim nem que fosse somente naquele instante. Meu amor era maior que minha própria consciência, inteligência.
Aquelas mãos brilhavam, e quando estendi meu braço, rumo ao dela, os meus passaram a brilhar e escorrer em rubro. E quando eu pensei que ia chegar a tocá-la com meu carinho, com meu afeto, e fazê-la sentir todo meu amor, eu cai. Cai sem sentir, cai sem ver, cai em meu próprio sonho. Os guardas da Rainha atenderam a seu chamado e atiraram sobre mim uma flecha, que atingiu logo meu coração. Não a flecha que conquista o amor, pois esse amor já estava conquistado. Mas a flecha que conquista a vida, já que essa eu ainda tinha minha.
Perdi minha vida.
E eu virei o rosto, e sem cumprimentar corporalmente, segui outro rumo, mesmo sabendo que havia um motivo para ela estar ali naquele momento. E por que me apareceu acompanhada? Havia um sentido em eu ter que dar meia volta e rejeitar seu amistoso cumprimento estando ela acompanhada. Dentro de mim, só aceitaria um amoroso cumprimento. E eis que o destino mostrou seu recado: ela não seria minha, e eu haveria de continuar seguindo meu caminho, trilhar por trajetos mais elevados, e acima dos meus próprios sentimentos, instintos, vaidade. Havia de libertar-me de mim mesmo para alcançar a graça de D-us, arquiteto de todos os caminhos que a vida dá, arquiteto de todo o destino. E por mais que eu queria manter-me aprisionado, a força do destino é maior que mim mesmo, e ei de libertar-me para viver. Ei de sublimar nesse momento para esquecer. Ei de sofrer, esquecer, e dedicar todo meu amor a um bem, e a um ser maior, mesmo querendo também esse outro amor. Como é doloroso ser imperfeito... e ter que seguir caminhando, sob a sorte do destino.