terça-feira, 10 de setembro de 2013
A Morte de Cérbero
Há pensamentos que invadem nossa consciência e que muitas vezes, sem fazer o menor sentido, inundam-na e dominam-na. No dia-a-dia, a rotina exerce papel fundamental em tornar a vida sob um tom preto e branco, de textura áspera, sabor insosso ou ácido, que emana o som do ruído branco da TV e preenche o ambiente de um fedor sufocante, asfixiante. Os risos e sorrisos, as pequenas gentilezas ou surpresas, diminutas coisas que trazem um pouco de cor alegre são passageiras e rápidas, logo dominadas pelo poder do fluxo do sobreviver. E o prazer, objetivo máximo da carne, ou reside na inconcebível loucura oculta do inconsciente, ou simplesmente inexiste.
A existência, viva no presente ou na memória, é a única que resguarda o medo, a vergonha e a censura. O medo, a vergonha e a censura são os combustíveis essenciais da monotonia diária, anti-prazer, anti-plenitude, anti-vida, pró-sobrevida. São como Cérbero, deixando a mente se alimentar dos desejos, mas jamais permitindo-os se concretizarem ou mesmo simplesmente deles ser falado. A morte é o que me permite externar os pensamentos e histórias que me permearam enquanto vivo.
Tendo se alimentado de tão pouco, porém contínuo e repetido, veneno diário, após anos e anos de sobrevivência, as pequeninas partes constituintes de minha alma adentraram em inevitável apoptose. Em morte, as pulsões libertaram-se e todos meus desejos explodiram as amarras da sobrevida fazendo-me mover sob o compasso do coração acelerado, palpitante, que ofegante deixa a respiração e faz também a pele transpirar. Sai em busca dos meus desejos.
Divulguei na internet meu desejo e, tempos depois, enquanto minha alma cada vez mais se putrefazia, encontrei quem o realizaria. Prometi tudo que eu tinha conquistado nesses anos de monotonia, somente para um momento de prazer pleno. É difícil de descrever em palavras a sensação que tive quando chegou em minha casa o meu herói.
Eu já havia deixado tudo preparado, tanto os instrumentos para o ato, bem como os necessários para depois limpar o local. Então, quando ele chegou, fez como eu havia pedido, ainda melhor do que pensava em meus desejos. Tocou a campainha. Eu abri. Ele jogou a porta contra mim, fazendo com que eu caísse no chão e batesse com as costas e a cabeça na parede. Eu estava extasiado, fiquei tantos anos esperando pela vida antes da morte. Ele envolveu meu pescoço com seu braço, forçosamente, e sussurrou em meu ouvido "Eu vou te dar tudo o que você merece." E eu chorei, chorei como uma criança que ganha um presente inesperado, com os olhos brilhando e sem pensar noutra cousa abandonei-me nessa plenitude.
O rapaz me jogou na cama, tirou minha roupa, rasgando-a e rasgando minha pele. Deu um soco em minha nuca. Mantive-me consciente, embora já muito fraco, e senti ele penetrar-me com força. Pegou a forquilha e sem ser delicado arrastou-a em minhas costas, rompendo a epiderme, derme e o que mais havia. Gritei de dor e prazer. Então ele cortou-me a boca por um lado, com a ferramenta que agrediu com rapidez e força. O cheiro de sangue já se sobrepusera ao do incenso que antes havia colocado na sala. Ele cortou um punho, colocou um copo embaixo, angariando cada gota de sangue minha e após preenchê-lo, deu-me de beber.
Bebi meu sangue como se fosse bálsamo para minha alma. E ele continuava a penetrar-me com força, sem medo de machucar-me, sem medo de que eu reagisse, simplesmente fazendo como eu havia mandado. E, tendo gozado, cortou meu pescoço e ficou abraçado comigo, até o último suspiro de vida.
Limpou-se em meu banheiro, limpou o chão com panos e panos, alvejante, desinfetante, não restou um único odor do sangue e da morte que há pouco estavam no ar. Pegou meu corpo, envolveu-o na roupa de cama, colocou-me dentro de uma mala grande já separada por mim antes de ele chegar, e levou-me por carro até um local afastado da cidade. Incendiou meu corpo e não restaram vestígios de minha existência, exceto na memória dos que me conheciam. Voltou à minha casa, pegou todo o dinheiro que eu havia prometido - e ele já havia se certificado de que lá estava, ao chegar na casa -, e sumiu, indo ele próprio atrás da realização de seus desejos.
Fez tudo como eu havia mandado. E, assim, pude sentir o prazer pintado de rubro, com odor de ferrugem e gosto de sangue a penetrar meu corpo, em êxtase. Tendo morrido nesse processo, já não mais precisava me ocupar das ações prazerosas, pois o prazer é objetivo da carne, e não do espírito. Agora, estava livre para satisfazer meus desejos além-vida: porque a vida eu já tinha vivido, mesmo que em poucos minutos, após anos de sobrevida.
sábado, 15 de junho de 2013
Interesse Afetivo
Para alguém despertar meu interesse afetivo, meu coração exige pouco (embora, em realidade, atualmente possa ser muito): uma vida de valores e princípios, sentimentos honestos e profundos, vontade permanente de aperfeiçoamento (transformação), e, por fim, fidelidade.
Exige pouco, mas um pouco raro. Quem sou eu para contrariá-lo?
Exige pouco, mas um pouco raro. Quem sou eu para contrariá-lo?
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Capítulo II - Um Cobertor de Estrelas
A Lua estava em seu ponto culminante: cheia, plena, reluzente, poderosa e repousando nas cinzentas nuvens que transitavam pelo céu, as quais ora encobriam umas estrelas, ora faziam surgir outras. Deitado na grama úmida, Lucano flutuava nesse espaço. Ele era apenas um garoto de cinco anos: magro e delicado, sua pele avermelhada escondia sempre a brancura de seus antepassados - talvez suas poucas sardas no nariz ainda resguardassem um pouco dessa história -, pois o que menos o menino gostava era de ficar dentro de casa, tinha sempre de banhar-se em Sol quando fazia suas brincadeiras. Seus olhos eram tão claros como o azul do céu do meio da tarde e seus cabelos pareciam palha, pois eram curtos, amarelo-escuros e revoltos-ondulados. Lucano adorava ficar ali, imerso no universo, sentindo-se não só presente, mas parte do todo.
- Lucano! Venha logo para a casa, menino! - gritou no meio da escuridão, da varanda da casa semi-iluminada pelas lâmpadas incandescentes, sua mãe, Dona Ângela. Ela gostava de ver o filho envolto da natureza, via que o menino se sentia bem quando fazia isso, mas se preocupava muito com os animais silvestres que volta e meia invadiam a fazenda, e também de o rapaz pegar um resfriado. Nem tanto por ela, no entanto, chamava Lucano, mas por seu pai, Dr. Severino, o qual, por outro lado, achava bobagem o menino ficar até tarde assim na rua. Tinha que respeitar a ordem dos pais e ficar dentro de casa, fazendo sua lição, como todo bom filho, dizia ele. Mas como sempre estava cansado do dia de trabalho, deixava a cargo da esposa o serviço de trazer o filho para casa.
Lucano, embora estivesse compenetrado nesse momento, atendeu ao chamado da mãe e foi em direção à casa. Já em sua cama, sua mãe ia lhe dar um beijo para dormir, quando falou:
- Mamãe, sinto D-us toda vez que deito e olho para o céu. Eu quero ser padre quando crescer.
Ângela riu, pois não era a primeira vez que o filho havia dito isso. Não havia coisa mais deliciosa que ver um pequeno sonhador, que imagina, viaja por entre as ideias e sentimentos sem pudor, sem limites impostos pela sociedade. E, como sempre, ela acariciou seu rosto e falou: "Lucano, pois eu acredito que serás um excelente padre! Só não conte para o papai que eu lhe disse isso, pode ser?" E ambos riam sempre da mesma brincadeira.
Dez anos depois, quando já era um adolescente, a pele nem tanto mais avermelhada - mais bronzeada -, um pouco de espinhas na face, cabelo mais comprido (mas não chegavam a cair para o pescoço), ainda deitava na relva para observar o céu. E ainda sentia D-us em sua plenitude. E ainda era chamado para vir à casa por sua mãe. E ainda dizia para sua mãe antes de dormir que ele seria padre. Dona Ângela, agora mais preocupada, no entanto, dizia para o filho parar com essas tolices, pois o pai dele iria dar uma surra nele se soubesse que o rapaz realmente levava essas ideias a sério.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Primeiro Capítulo: A Luz do Mundo
- Sô! - minutos passaram-se - Sô! Venha logo, minha filha.
E ia Sofia em direção a seu pai, seu Brás. Todos os dias, Jerônimo Brás e Silva - seu Brás, como sempre o chamaram - levava Sô à igreja para assistir à missa. Quando soube que sua mulher - dona Ila , ou Ilana, como consta na certidão de nascimento - estava grávida de Sofia, seu Brás foi agradecer a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, por essa dádiva. Falando em nomes, aliás, Seu Brás deu a Sofia esse nome por uma bizarra coincidência: no 33º dia de gestação de D. Ila, o carteiro trouxe uma encomenda inusitada, uma caixa endereçada sem remetente à sua casa tendo em seu interior o livro "O Mundo de Sofia". Seu Brás achou isso tão providencial, e Dona Ila gostou tanto do nome, que ambos chamaram o ser que se desenvolvia no interior desta de Sofia, até porque já sentiam que ele seria uma mulher. Dona Ila já tinha trinta anos quando engravidou de Sofia: era um grande motivo de gratidão aos santos depois de vários anos esperando enfim ter chego sua filha. Por isso, seu Brás levava todo domingo de manhã a filha para a igrejinha do bairro, em agradecimento pelo tesouro que os céus e sua mulher lhe proporcionou.
A igreja do bairro era simples, nem um pouco parecida com as do Vaticano: a pintura era velha, um azul amarelo-esverdeado desgastado, a moldura das janelas até enganava bem tentando parecer o ouro em abundância dos bispos lá de outra terra, mas também já estavam bem envelhecidas e não tão bem o mimetizavam mais. Mas a estrutura era o que menos importava: lá estavam não para admirar o belo que erguia a igrejinha, mas a Palavra que lá era dita.
Seu Brás sempre achou estranho aquele jovem padre, que em nada parecia com o velho Padre Marcelino que o catequizou, um senhor de sessenta e lá vão anos que falava em Jesus citando o que não deveria ser feito pelos cristãos. O padre Lucano era um jovem rapaz, de vinte e alguns anos, vindo lá das grandes cidades do sudeste do Brasil, depois que Padre Marcelino havia morrido.
- Meus irmãos, sejam bem-vindos à casa do Senhor - assim sempre começava o culto o Padre Lucano, com seu cachorro vira-lata de pelos castanho-avermelhados, Carlito, repousado em seu colo, sob as vestes branco-amareladas, sentado em uma cadeira em frente aos fiéis, cerca de uns dez moradores da região que sempre vinham rezar. Seu Brás sequer sabia que podia o Padre rezar a missa assim, sentado, com um cachorro no colo! Que coisa mais estranha, pensava ele em todas as missas que comparecia, aos domingos. - Vocês já ouviram a parábola da Luz do Mundo? - diante do silêncio dos fieis, continuou - Irmã Salete, poderia ler para nós, por gentileza? Está em Lucas, capítulo oito, versículos dezesseis ao dezoito.
- "Ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a põe debaixo duma cama; pelo contrário coloca-a sobre um velador, a fim de que os que entram, vejam a luz. Pois não há coisa oculta, que não venha a ser manifesta; nem coisa secreta, que se não haja de saber e vir à luz.", esta é a Palavra do Senhor. Amém. - Irmã Salete, uma senhorinha de uns setenta anos, já se perdia na missa desse novo padre, já não sabia quando falar Palavra do Senhor, ou Palavra da Salvação, ou quando rezar o Creio, quando se sentar, quando se levantar. Mas sempre atendia prestativa aos pedidos do jovem missionário, que não possuia um ritual nas missas que rezava.
domingo, 7 de abril de 2013
Nomes
Nomes deveriam seguir um padrão que os tornassem únicos, tipo o número do CPF, mas um CPF universal.
Quem sabe assim não fosse necessário se questionar "nossa, mais uma gabriela na minha vida?".
Logo logo, sinto que terei de ir ao Japão, para não me deparar com a 99ª pessoa de nome igual com quem eu já me relacionei.
Ou, quem sabe, eu deva sossegar e começar a ficar com poucas - de nomes diferentes ou não - pessoas, para que sejam definitivamente únicas.
Mas, se for pensar: nome também diz tão pouco sobre uma pessoa, não é verdade? Deixa para lá.
Palavras e Memórias
Eu queria ter palavras para descrever o que ocorreu, pois nelas deposito sentimentos. Quando são bons, registro para que eu possa sempre ressenti-los ao ler o que escrevi. Quando são ruins, escrevo para guardar em sete chaves e só acessá-los novamente quando isso realmente for preciso. Eu queria colocar nessa crônica cada detalhe, cada segundo, para que eu não tivesse que continuar reverberando nas memórias o que há pouco ocorreu.
Não quero lembrar de como foi engraçado te conhecer, como eu nem imaginava que poderia sequer haver chances entre nós. Não quero lembrar de como foi a minha felicidade em saber que você poderia se interessar por mim. Não desejo, de forma alguma, relembrar de como eu ficava ansioso para, no dia seguinte, falar contigo novamente. E quando tu vinhas falar comigo... eu explodia de alegria! Parecias te interessar...
Se, dessas coisas boas eu tenho dor ao lembrar, imagina das que se seguiram... quando tu paraste de vir falar comigo e eu me forçava a não falar contigo, pois não desejava demonstrar interesse excessivo. Quando eu marcava para te ver, e tu simplesmente inventava desculpas para isso não ocorrer.
Foi doloroso admitir que eu estava interessado e que tu parecias estar apenas brincando comigo. Não, não quero lembrar... de quando respondeste que aceitaria meus defeitos, para continuar a falar comigo, pois é fácil amar as pessoas somente pelas suas qualidades. Mas tampouco lembrança desejo ter de quando tivemos nossa última conversa e tu disseste que não sabia o que desejava, que devíamos ir com calma, que não poderia me ver assim tão cedo... Que tu tinhas teus medos e precisava superá-los, mas eu não queria te perder e gostaria muito que superássemos eles juntos! Que eu disse "até um dia", querendo que tu dissesse "fica".
Não, não bastam essas memórias. Preciso de palavras para amordaçar cada sentimento, cada milissegundo do que vivi.
Quero esquecer do quanto fui precipitado, pois mesmo mal te conhecendo, meu coração abria as portas e chamava, como que um órfão quando recebe a visita de um possível casal no orfanato. E era tão idiota isso, pois eu não estou órfão. Parece até doentio, às vezes... por sorte questiono os limites da normalidade e não me afundo em neuroses acerca disso. Mas... talvez eu fosse um filho no meio de vários pais.... Trocando de família a cada dois, três meses e já cansado de conhecer uma nova, sempre desejando que esta fosse aquela com a qual tudo iria dar certo. Quero até esquecer de que, no final, eu desejava mesmo era continuar para sempre só, órfão em meus sentimentos.
Incrível... eu sei que isso não bastará. Faltam-me palavras, falta-me bile para digerir esses sentimentos e e vivências e transformá-las em um texto, racional e coeso. E, ao mesmo tempo, falta-me fé para acreditar que um dia conseguirei digerir tudo e permitir-me simplesmente esquecer todas as famílias por que já passei, para conseguir livremente viver com uma nova, sem que ela precise ser especial, pois eu estaria liberto de meus medos, inseguranças e amarras mentais. Ela poderia ser simplesmente ela mesma e eu eu mesmo, para juntos nos descobrirmos e ajudarmo-nos em nossas falhas. Eu queria esquecer, eu desejo escrever, mas às vezes - como agora -, mesmo escrevendo parece não ter sido suficiente: eu vou lembrar de ti.
sábado, 30 de março de 2013
O Desabafo do Apaixonado
Noites e noites sonhei contigo. Com tua pele clara, macia, tocando na minha. Sonhei com tua presença discreta, doce, sincera. Sonhei com tua relativa ingenuidade, com a possibilidade de nos descobrirmos humanos juntos. Sonhei que tua pureza a mim seria ofertada e que assim eu pudesse compartilhar contigo também a minha.
Triste é quando se percebe que o que parece pesadelo é, na verdade, pura realidade, na qual o que se sonhou em nada aconteceu.
Idealizei tanto a ti que agora me sinto um completo idiota. Idiota, como todo apaixonado. Sozinho. Apaixonado. Eu, no limiar entre o prazer e minhas inseguranças mentais.
Eu, confuso e sem saber o que é pesadelo, o que é sonho e o que é realidade. Dentre os três, no entanto, real ou não, fico com meu sonho. É o que me inspira sentimentos bons.
sábado, 23 de março de 2013
Incontrolável dentro de Si
Não ser capaz de controlar algo incomoda. Não ser capaz de controlar algo que nasce e reside dentro de si, no entanto, irrita, agonia, corroi, lacera internamente.
A paixão e os sentimentos os quais junto dela surgem muito embora possam ser agradáveis, quando são correspondidos, quando desenvolve um relacionamento legal, podem ser, todavia, motivo de dor, sofrimento e frustrações quando isso não ocorre.
E não há sentido para explicar por que se apaixonou. Não basta o cabelo louro, os olhos claros transparentes, pelos quais - junto do sincero sorriso - vê-se a espontaneidade despreocupada da alma, que emana felicidade, fortifica-se na alegria. Não basta o corpo de curvas deliciosamente perfeitas, cujo tato imagino ser delicado, suave, macio. Não basta a boca úmida, de cujos lábios imagino tomar um beijo, inundando-me desses fluidos alheios e inundando-o. Não basta.
Sua ausência irrita-me, seu culto a si próprio me enoja, sua falta de compromisso me entristece, sua vida desregrada me desinteressa, seu medo de ser você mesmo me indigna, sua falta de vontade em ser comigo me devora.
Mesmo assim, não bastassem suas falhas qualidades e seus tão fortes defeitos, por que por você me apaixonei?
Por que continua em meus pensamentos, é motivo de minha melancolia, me faz sentir incompleto?
Por que meu coração não permite que eu mesmo escolha por quem me apaixonar, por quem eu deseje compartilhar meu viver, por quem eu possa construir uma história de amor?
E por que eu lhe desejo tanto comigo, ao passo que desejo tanto lhe esquecer e não lhe ter por perto?
E por que eu imagino ter todas essas respostas somente com você se relacionando comigo, e não de uma forma diferente?
Meus sentimentos incontroláveis me incomodam, corroem-me, entristecem-me, e aqui estou eu a sofrer por ter me apaixonado por você. E se ao menos fosse um amor correspondido... tudo seria tão diferente!
Por que não me corresponde, para juntos encontrarmos a felicidade?
terça-feira, 12 de março de 2013
De Monge à Vida Comum
No fundo, eu queria ter sido mais corajoso quando jovem e ter desistido de tudo para me tornar um monge isolado do mundo.
Na profundidade de meus pensamentos, no entanto, fiz a escolha certa, mesmo sendo covarde: escolhi sofrer, crescer pouco sozinho, mas ter a oportunidade única e valiosa de crescer coletivamente. Para mim, que acredito na vida eterna, isso é fundamental.
Por isso, sou chato com algumas pessoas. Desejo a todo custo estimular a "produtividade" dessas amizades. Creio que conhecemos determinadas pessoas não por mero acaso, mas por premeditada e harmônica ação do destino, o qual permite, a cada relacionamento, um rol de aprendizados e construções coletivas, que visam ao aperfeiçoamento espiritual, moral e para além disso dos indivíduos que se relacionam.
Cada relação é uma troca de energia, envolve troca de saberes e experiências e tudo isso é muito construtivo no sentido supracitado. E, tendo em vista que foi isso que escolhi para minha vida, e não o crescimento alienado e solitário, eu, com certas pessoas, tento ao máximo explorar esse potencial criador com quem me relaciono.
Os Desejos do Coração
O que é belo pode cativar minha atenção e admiração.
Todavia, somente o que é sincero, desapegado, espontâneo é capaz de conquistar meu coração.
Não me apaixono por beleza,
Não me comovo por feiura.
Sinto por sentir do outro:
Há o belo que não provoca sentimento
E há o feio que conquista até a razão - além da emoção.
Posso inclusive desejar o que é desejado,
Mas é por meio de meus próprios desejos que fico apaixonado.
Sei que o coração sincero é difícil de conquistar:
É tanto desapego e espontaneidade que ele parece ser feliz sozinho.
Meu desafio é ensinar a ele a importância de a outrem amar.
E, quando há sentimento com esse tipo de pessoa,
Aí se tem a certeza de um amor verdadeiro e real
- Não mais algo ilusório ou banal.
Seja belo ou feio,
Desejado ou abominado:
É, pois, o sincero e desapegado,
Espontâneo em seu modo de ser
Com quem eu desejo compartilhar o meu viver.
domingo, 10 de março de 2013
Alma Doente
Quero escrever dessa ânsia que invade minha garganta, desses calafrios pelo corpo, desse embrulho no estômago, dessa confusão mental. E, se aqui falo de doença, trato daquela da alma, pois lágrimas escorrem eu meu rosto ao ouvir essa música triste, lembrando do passado e novamente percebendo que ele, de certa forma, vem se repetindo novamente. Quero vomitar esses sentimentos pelos quais me alimentei, expulsar de mim esse frio da negatividade e reintegrar a posse de mim, de minha vida, do que sinto e do que faço.
A Mente Artesã
O pensamento é energia e o desejo molda-a. Ao longo dos anos, fui construindo em minha mente a pessoa que seria ideal para mim. Como um artesão, minha mente esculpiu em pensamentos cada detalhe desse ser desejado. Um molde pré-fabricado estava praticamente pronto e, a cada momento em que uma pessoa aparecia em minha vida, minha mente colocava o molde sobre o indivíduo. Cada característica diferente, presente na pessoa real, do molde fazia com que aos poucos ele se quebrasse, revelando quem realmente era a pessoa com a qual eu estava me relacionando. E, ao passo em que as ilusões se desfaziam, aumentava a frustração por eu desejar algo e a vida me colocar defronte a algo diferente.
Engraçado: minha mente também aplicou um molde sobre mim, do qual surgem fortes frustrações a cada vez que conheço em mim algo que eu não desejo ser.
Tantos moldes, tantas ilusões, tantas frustrações: por que simplesmente não aceitar a realidade como ela é? Por que há de complicar tanto, criando complexas situações e envolvendo os relacionamentos em dor e desilusão?
É óbvio que há uma forma mais saudável de viver a relação interpessoal. Todavia, como convencer minha mente a seguir esse caminho?
Perguntas as quais exigem respostas fundamentais para a minha felicidade. Logo, empenhar-me-ei em decifrá-las.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
A Dança
As janelas estão fechadas, protegendo meu quarto da noite. Meus olhos se fecham, sonhos vêm e vão. Acordo. Exponho o ambiente aos raios solares, que invadem tomando conta de cada canto do aposento. Espreguiço-me. Levanto-me e ligo o som.
Aos poucos, as notas das músicas tomam forma em minha mente. Meu coração pulsa em harmonia com o ritmo da melodia, minha respiração fica ofegante, meus ossos se tornam leves, meus músculos relaxam.
Minhas mãos fazem movimentos leves. Meus pés começam a bater no chão. Minha cabeça inquieta-se. Meus ombros sobem e descem e dão voltas. Meus joelhos flexionam, e retornam, e flexionam. Meus cotovelos circunflexionam, e vêm e vão, e retornam.
O som da música vem como uma onda que entra em ressonância em meu corpo, levando-o à sintonia e trazendo movimentos harmônicos em seus membros. Vermelho, me recolho. Azul, me estendo. E de uma sucessão de cores, ordena-se a dança, natural.
Na lentidão da melodia, deito-me em um lençol macio, suspendo-me pelos ares, deixando-me levar pela brisa, que acaricia meu corpo. No agito, estou nas ondas do mar, ora batendo com força nos rochedos, ora erguendo-se e erguendo-se pelas alturas, mostrando sua força interior.
Sou um feixe de água, iluminado por prismas que emitem faixas de todas as cores, as quais projetam-se em mim. Certas horas, ganho forças, subindo, subindo e subindo. Estouro. Explodo tridimensionalmente para todos os lados. E caio, como em um chicote, no chão. E me reúno, gota por gota, formando uma espiral ainda mais forte, que, cadenciada, vai subindo como uma serpente, direita, esquerda, direita, esquerda, em um movimento ondulatório e, na verdade, helicoidal. Lá no alto, irradio-me em inúmeros feixes, que rapidamente trocam de cores. E tomo forma. Flor. Pedra. Árvore. Sol. Lua.
E a música acaba. Abro meus olhos, meus músculos enrijecem, minha cabeça aquieta-se tanto quando meus pés, agora parados, e minhas mãos se unem, como em prece. Meu dia começou.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
A Vida e A Morte
Por vezes, percebo a morte, quando ela passa perto - atingindo amigos, entes queridos, pessoas famosas.
A vida é tão contagiante - e viciante - que só quando me dou por falta da vida de alguém (não eu), cuja presença é importante, é que sinto a existência da morte da carne, da ausência do ser antes cheiroso, tátil, gustativo, visível, audível. Sensível. Amado. Agora, ignorado. Logo, esquecido.
Engraçado é que o vício pela vida muito pouco é questionado. Já o vício pela morte - própria ou alheia - a sociedade sabe bem discriminar.
Será que a vida é tão viciante que, mesmo quando me inundar em morte, me verei vivo ainda? Fica aqui minha curiosidade.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Amor Perfeito
Constantemente procuramos ou acreditamos viver o amor perfeito.
De fato, cada amor em si é perfeito - mesmo que amor em si não seja, mas só uma paixão ou afeição.
Tudo tem seu momento, cada peça está onde deve estar.
Isso é perfeição. Isso é destino.
E eternas somente são as memórias de tudo que ocorre. O resto, tudo passageiro.
Por isso, longe do romantismo da eternidade do amor de dois apaixonados, mas tampouco perto do realismo de uma paixão de interesses e superficialidade, eis que o amor sempre é perfeito - como já disse o poeta: eterno enquanto dure.
Sobre a Vida
"Sometimes I lay under the moon
And I thank God I'm breathing
Then I pray don't take me soon
Cause I am here for a reason"
One Day, Matisyahu
Fiquei o dia inteiro com uma vontade estranha de chorar e essa música fez cair dos meus olhos algumas lágrimas.
Sabe quando você precisa que alguém lhe toque e diga: "está tudo bem, eu estou contigo"? Então... essa música me fez sentir tocado por D-us. E me faz lembrar "que eu estou aqui por um motivo", jamais vou me esquecer disso.
Há pouco mais de quatro anos, eu realizei um ritual em que firmei uma aliança com D-us: minha vida seria dedicada à vida, pela manutenção da Criação Divina, e Ele me forneceria as oportunidades necessárias para eu cumprir essa promessa. Eu estava no pré-vestibular, não tinha avidez nenhuma em cursar Medicina, conforme era desejo de minha família. Mas, em meu segundo ano de tentativa, eu disse "esse será meu último ano, Senhor, que Sua vontade seja feita" e eu não passei. Mas fiquei tão perto que, em abril de 2010, fui chamado para ingressar no curso. Na verdade, quando vi minha colocação, em janeiro daquele ano, eu já chorei e disse "Obrigado, Senhor. Que assim seja" - eu já sabia que seria chamado.
Por vezes, esqueço-me de quem me colocou onde estou. Esqueço-me - momentaneamente - de quem me estendeu a mão e disse "Lucas, viva". E toda vez que, estando longe de cumprir o prometido, me lembro disso tudo eu fico assim... querendo retornar ao meu caminho.
Experimentei nesses últimos meses uma grande vivência hedônica. Foi ótimo, não nego. Cresci tanto social, moral e espiritualmente! Mas pouco sinto ter contribuído ao que me cerca. Foi como uma jornada solitária, mesmo cercado.
Acredito que experiências como essa são importantes mesmo na vida das pessoas, mas não podem essas preencher um todo de uma vida. Devem ser somente momentos, vivências. O objetivo de vida de cada um com certeza é maior que sua felicidade, prazer, desejos.
Quero retornar imediatamente ao caminho da aliança. Quero retornar e caminhar ao lado dAquele que me fortalece. Devo minha vida em gratidão ao que Ele me proporciona. E assim viverei. Não só sobreviverei sob instinto de meus desejos, prazeres e ilusória felicidade. Viverei em plenitude. Viverei.
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