segunda-feira, 3 de junho de 2013
Capítulo II - Um Cobertor de Estrelas
A Lua estava em seu ponto culminante: cheia, plena, reluzente, poderosa e repousando nas cinzentas nuvens que transitavam pelo céu, as quais ora encobriam umas estrelas, ora faziam surgir outras. Deitado na grama úmida, Lucano flutuava nesse espaço. Ele era apenas um garoto de cinco anos: magro e delicado, sua pele avermelhada escondia sempre a brancura de seus antepassados - talvez suas poucas sardas no nariz ainda resguardassem um pouco dessa história -, pois o que menos o menino gostava era de ficar dentro de casa, tinha sempre de banhar-se em Sol quando fazia suas brincadeiras. Seus olhos eram tão claros como o azul do céu do meio da tarde e seus cabelos pareciam palha, pois eram curtos, amarelo-escuros e revoltos-ondulados. Lucano adorava ficar ali, imerso no universo, sentindo-se não só presente, mas parte do todo.
- Lucano! Venha logo para a casa, menino! - gritou no meio da escuridão, da varanda da casa semi-iluminada pelas lâmpadas incandescentes, sua mãe, Dona Ângela. Ela gostava de ver o filho envolto da natureza, via que o menino se sentia bem quando fazia isso, mas se preocupava muito com os animais silvestres que volta e meia invadiam a fazenda, e também de o rapaz pegar um resfriado. Nem tanto por ela, no entanto, chamava Lucano, mas por seu pai, Dr. Severino, o qual, por outro lado, achava bobagem o menino ficar até tarde assim na rua. Tinha que respeitar a ordem dos pais e ficar dentro de casa, fazendo sua lição, como todo bom filho, dizia ele. Mas como sempre estava cansado do dia de trabalho, deixava a cargo da esposa o serviço de trazer o filho para casa.
Lucano, embora estivesse compenetrado nesse momento, atendeu ao chamado da mãe e foi em direção à casa. Já em sua cama, sua mãe ia lhe dar um beijo para dormir, quando falou:
- Mamãe, sinto D-us toda vez que deito e olho para o céu. Eu quero ser padre quando crescer.
Ângela riu, pois não era a primeira vez que o filho havia dito isso. Não havia coisa mais deliciosa que ver um pequeno sonhador, que imagina, viaja por entre as ideias e sentimentos sem pudor, sem limites impostos pela sociedade. E, como sempre, ela acariciou seu rosto e falou: "Lucano, pois eu acredito que serás um excelente padre! Só não conte para o papai que eu lhe disse isso, pode ser?" E ambos riam sempre da mesma brincadeira.
Dez anos depois, quando já era um adolescente, a pele nem tanto mais avermelhada - mais bronzeada -, um pouco de espinhas na face, cabelo mais comprido (mas não chegavam a cair para o pescoço), ainda deitava na relva para observar o céu. E ainda sentia D-us em sua plenitude. E ainda era chamado para vir à casa por sua mãe. E ainda dizia para sua mãe antes de dormir que ele seria padre. Dona Ângela, agora mais preocupada, no entanto, dizia para o filho parar com essas tolices, pois o pai dele iria dar uma surra nele se soubesse que o rapaz realmente levava essas ideias a sério.
