segunda-feira, 20 de maio de 2013

Primeiro Capítulo: A Luz do Mundo



Sofia era uma mulher de dezessete anos, cujos cabelos pretos longos desciam pelo pescoço e ombros, acomodando-se em seu peito. Seus olhos cor-de-jabuticaba guardavam sob a sombra de sua escuridão muitas imagens vistas ao longo de sua vida. Sua pele morena clara, tez aveludada em seus pelos quase que imperceptíveis, de escassos, traduzia em suas curvas a história de sua Nação, a brasileira. Quando a chamavam Sô!, vinha sorrateiramente, com um sorriso tímido e espontâneo, revelando seus dentes brancos e seus lábios carnudos cor-de-avelã.
 - Sô! - minutos passaram-se - Sô! Venha logo, minha filha.
E ia Sofia em direção a seu pai, seu Brás. Todos os dias, Jerônimo Brás e Silva - seu Brás, como sempre o chamaram - levava Sô à igreja para assistir à missa. Quando soube que sua mulher - dona Ila , ou Ilana, como consta na certidão de nascimento - estava grávida de Sofia, seu Brás foi agradecer a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, por essa dádiva. Falando em nomes, aliás, Seu Brás deu a Sofia esse nome por uma bizarra coincidência: no 33º dia de gestação de D. Ila, o carteiro trouxe uma encomenda inusitada, uma caixa endereçada sem remetente à sua casa tendo em seu interior o livro "O Mundo de Sofia". Seu Brás achou isso tão providencial, e Dona Ila gostou tanto do nome, que ambos chamaram o ser que se desenvolvia no interior desta de Sofia, até porque já sentiam que ele seria uma mulher. Dona Ila já tinha trinta anos quando engravidou de Sofia: era um grande motivo de gratidão aos santos depois de vários anos esperando enfim ter chego sua filha. Por isso, seu Brás levava todo domingo de manhã a filha para a igrejinha do bairro, em agradecimento pelo tesouro que os céus e sua mulher lhe proporcionou.
A igreja do bairro era simples, nem um pouco parecida com as do Vaticano: a pintura era velha, um azul amarelo-esverdeado desgastado, a moldura das janelas até enganava bem tentando parecer o ouro em abundância dos bispos lá de outra terra, mas também já estavam bem envelhecidas e não tão bem o mimetizavam mais. Mas a estrutura era o que menos importava: lá estavam não para admirar o belo que erguia a igrejinha, mas a Palavra que lá era dita.
Seu Brás sempre achou estranho aquele jovem padre, que em nada parecia com o velho Padre Marcelino que o catequizou, um senhor de sessenta e lá vão anos que falava em Jesus citando o que não deveria ser feito pelos cristãos. O padre Lucano era um jovem rapaz, de vinte e alguns anos, vindo lá das grandes cidades do sudeste do Brasil, depois que Padre Marcelino havia morrido.
 - Meus irmãos, sejam bem-vindos à casa do Senhor - assim sempre começava o culto o Padre Lucano, com seu cachorro vira-lata de pelos castanho-avermelhados, Carlito, repousado em seu colo, sob as vestes branco-amareladas, sentado em uma cadeira  em frente aos fiéis, cerca de uns dez moradores da região que sempre vinham rezar. Seu Brás sequer sabia que podia o Padre rezar a missa assim, sentado, com um cachorro no colo! Que coisa mais estranha, pensava ele em todas as missas que comparecia, aos domingos. - Vocês já ouviram a parábola da Luz do Mundo? - diante do silêncio dos fieis, continuou - Irmã Salete, poderia ler para nós, por gentileza? Está em Lucas, capítulo oito, versículos dezesseis ao dezoito.
 - "Ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a põe debaixo duma cama; pelo contrário coloca-a sobre um velador, a fim de que os que entram, vejam a luz. Pois não há coisa oculta, que não venha a ser manifesta; nem coisa secreta, que se não haja de saber e vir à luz.", esta é a Palavra do Senhor. Amém. - Irmã Salete, uma senhorinha de uns setenta anos, já se perdia na missa desse novo padre, já não sabia quando falar Palavra do Senhor, ou Palavra da Salvação, ou quando rezar o Creio, quando se sentar, quando se levantar. Mas sempre atendia prestativa aos pedidos do jovem missionário, que não possuia um ritual nas missas que rezava.