terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Morte de Cérbero



Há pensamentos que invadem nossa consciência e que muitas vezes, sem fazer o menor sentido, inundam-na e dominam-na. No dia-a-dia, a rotina exerce papel fundamental em tornar a vida sob um tom preto e branco, de textura áspera, sabor insosso ou ácido, que emana o som do ruído branco da TV e preenche o ambiente de um fedor sufocante, asfixiante. Os risos e sorrisos, as pequenas gentilezas ou surpresas, diminutas coisas que trazem um pouco de cor alegre são passageiras e rápidas, logo dominadas pelo poder do fluxo do sobreviver. E o prazer, objetivo máximo da carne, ou reside na inconcebível loucura oculta do inconsciente, ou simplesmente inexiste.
A existência, viva no presente ou na memória, é a única que resguarda o medo, a vergonha e a censura. O medo, a vergonha e a censura são os combustíveis essenciais da monotonia diária, anti-prazer, anti-plenitude, anti-vida, pró-sobrevida. São como Cérbero, deixando a mente se alimentar dos desejos, mas jamais permitindo-os se concretizarem ou mesmo simplesmente deles ser falado. A morte é o que me permite externar os pensamentos e histórias que me permearam enquanto vivo.
Tendo se alimentado de tão pouco, porém contínuo e repetido, veneno diário, após anos e anos de sobrevivência, as pequeninas partes constituintes de minha alma adentraram em inevitável apoptose. Em morte, as pulsões libertaram-se e todos meus desejos explodiram as amarras da sobrevida fazendo-me mover sob o compasso do coração acelerado, palpitante, que ofegante deixa a respiração e faz também a pele transpirar. Sai em busca dos meus desejos.
Divulguei na internet meu desejo e, tempos depois, enquanto minha alma cada vez mais se putrefazia, encontrei quem o realizaria. Prometi tudo que eu tinha conquistado nesses anos de monotonia, somente para um momento de prazer pleno. É difícil de descrever em palavras a sensação que tive quando chegou em minha casa o meu herói.
Eu já havia deixado tudo preparado, tanto os instrumentos para o ato, bem como os necessários para depois limpar o local. Então, quando ele chegou, fez como eu havia pedido, ainda melhor do que pensava em meus desejos. Tocou a campainha. Eu abri. Ele jogou a porta contra mim, fazendo com que eu caísse no chão e batesse com as costas e a cabeça na parede. Eu estava extasiado, fiquei tantos anos esperando pela vida antes da morte. Ele envolveu meu pescoço com seu braço, forçosamente, e sussurrou em meu ouvido "Eu vou te dar tudo o que você merece." E eu chorei, chorei como uma criança que ganha um presente inesperado, com os olhos brilhando e sem pensar noutra cousa abandonei-me nessa plenitude.
O rapaz me jogou na cama, tirou minha roupa, rasgando-a e rasgando minha pele. Deu um soco em minha nuca. Mantive-me consciente, embora já muito fraco, e senti ele penetrar-me com força. Pegou a forquilha e sem ser delicado arrastou-a em minhas costas, rompendo a epiderme, derme e o que mais havia. Gritei de dor e prazer. Então ele cortou-me a boca por um lado, com a ferramenta que agrediu com rapidez e força. O cheiro de sangue já se sobrepusera ao do incenso que antes havia colocado na sala. Ele cortou um punho, colocou um copo embaixo, angariando cada gota de sangue minha e após preenchê-lo, deu-me de beber.
Bebi meu sangue como se fosse bálsamo para minha alma. E ele continuava a penetrar-me com força, sem medo de machucar-me, sem medo de que eu reagisse, simplesmente fazendo como eu havia mandado. E, tendo gozado, cortou meu pescoço e ficou abraçado comigo, até o último suspiro de vida.
Limpou-se em meu banheiro, limpou o chão com panos e panos, alvejante, desinfetante, não restou um único odor do sangue e da morte que há pouco estavam no ar. Pegou meu corpo, envolveu-o na roupa de cama, colocou-me dentro de uma mala grande já separada por mim antes de ele chegar, e levou-me por carro até um local afastado da cidade. Incendiou meu corpo e não restaram vestígios de minha existência, exceto na memória dos que me conheciam. Voltou à minha casa, pegou todo o dinheiro que eu havia prometido - e ele já havia se certificado de que lá estava, ao chegar na casa -, e sumiu, indo ele próprio atrás da realização de seus desejos.
Fez tudo como eu havia mandado. E, assim, pude sentir o prazer pintado de rubro, com odor de ferrugem e gosto de sangue a penetrar meu corpo, em êxtase. Tendo morrido nesse processo, já não mais precisava me ocupar das ações prazerosas, pois o prazer é objetivo da carne, e não do espírito. Agora, estava livre para satisfazer meus desejos além-vida: porque a vida eu já tinha vivido, mesmo que em poucos minutos, após anos de sobrevida.