domingo, 8 de julho de 2012
O Suicida
Disseram que eu era um jovem apaixonado, um adolescente qualquer que, ao ouvir um "não" definitivo de quem amava resolveu ele próprio dizer não a sua vida. Eu quero corrigir essa história e contar a minha versão.
Eu nunca tive muitas oportunidades na vida no sentido de me tornar alguém bem sucedido. Não tive acesso a uma boa escola, não consegui entrar na faculdade que eu desejava, tendo que fazer um curso pago que nada tinha a ver comigo e com meus desejos. Nunca tive muitos amigos e foram poucas as pessoas por quem me apaixonei.
Mas há tantas pessoas em iguais condições à minha que continuam vivendo, levando a vida, embora haja aqueles que morrem de miséria, fome, doenças físicas, acidentes, violência. E inclusive tantas pessoas que amavam e não foram correspondidas que também continuaram vivendo.
Não, não é correto dizer que eu tomei essa decisão por não ter oportunidades sociais (escola, emprego, moradia de qualidade, etc). E não é justo dizer que fiz isso por uma desilusão amorosa.
Menosprezam minha existência! Minha capacidade de pensar, sentir, viver.
Eu morri de desgosto.
Joguei-me do ático do prédio onde eu morava, se te interessa saber. Tive alguns minutos sentindo a dor por todo meu corpo, que já se liquefazia em sangue, perdendo seu vigor.
Meu corpo ficou completamente desfigurado e meus pais se recusaram a deixar o caixão aberto na hora do velório, pois não era esse o filho que conheciam e amavam e cuidavam e que hoje faz tanta falta. Sinto muito por ter feito isso com eles, e com meus amigos também.
Na verdade, eu vivia uma mentira. Tive que fingir por todos meus dezoito anos de vida que eu era igual aos outros, feliz, normal. Eu era, em alma, aquele corpo desfigurado que meus pais recusaram aceitar como seu filho, e meus amigos como seu amigo, e minha amada como seu ex-amor.
(A crônica foi abandonada antes de ser finalizada.)
