domingo, 8 de julho de 2012

O Abandono dos Reis



As risadas, altas, pontiagudas e estridentes, ecoavam pelo salão do castelo. Eram em número de sete as mulheres vestidas com longos vestidos esfiapados e velhos, todavia tão pretos como se imaginaria que só assim fossem sem nenhuma dessa sujeira, pó, barro e sangue os quais banhavam suas vestes. As bruxas gritavam Ele morreu, Ele morreu! Quem agora desafiará os verdadeiros Reis?
Logo atrás das feiticeiras, seguia um grupo de cinco homens encapuzados. Vestidos com uma capa roxa e roupa preta, tinham em seu peito o grande medalhão em ferro enegrecido do pentagrama invertido e carregava cada um seu cajado. Era um pedaço de pau, mas que do tom cinzento e aparente resistência mais parecia um verdadeiro metal. Entraram quietos pelos portões do salão, mas tão cedo chegaram perto do altar, pararam. Viva o Reinado! E bateram com seus cajados no solo, cujo som seco, mas intenso envolveu todo o recinto. Logo os levantaram e ao reluzir no sol, tudo se enegreceu e um grito ensurdecedor, agudo surgiu. Via-se no salão somente a luz apagada das velas e os vultos das bruxas e dos magos começavam a se postar perante suas poltronas.
Uma onda de corvos, que só se sabia sua presença devido ao barulho que emanavam e pelo deslocamento de ar o qual causavam, adentrou no salão pelas grandes janelas - vãos, na verdade, pois não existia nenhuma proteção entre a estrutura de pedra - e acomodou-se. Atenção! Atenção! Dará entrada ao Salão da Promessa os Reis Mateus, Marcos e João, falaram os gigantes, com sua voz pesada e estremecedora, guardiões do portão de entrada.
Aos poucos, a harmonia doce de flauta ia ganhando o ambiente, e  uma luz radiante surgiu na escuridão, adentrando no Salão. Eram os Reis, altos, magros e de tez clara. O cabelo de João, o mais alto de todos, era loiro e comprido, alcançava sua cintura, enquanto que Mateus o tinha bem curto e enegrecido, tão escuro quanto o do rei Marcos, cujo cabelo alcançava seu ombro. Caminhavam por sobre o tapete vermelho sangue, agora bem visível pela luz irradiada pelos próprios Reis, com lentidão característica, típico do que se espera de grandes Reis, nem tão afobados, como uma criança plebeia, tampouco lerdos tal qual um velho moribundo - eram Reis.
Atrás deles acompanhava um macaco magro, carregando um rolo de papel. Enquanto andavam rumo a seus tronos, o bicho olhava a cara dos discípulos, que lotavam o Salão. Eram sujos, pobres, sedentos, percebia-se a miséria e pobreza por suas vestes e sua tristeza era notável, pela face abatida e olheiras fortes e escurecidas por sobre os olhos.


(O conto foi abandonado antes de ser finalizado.)