sábado, 14 de julho de 2012

A Bênção da Morte Trágica



Eu vou contar a história de um indivíduo bem particular: moreninho, não muito alto, nem muito baixo, magriiinho, olhos negros como seus cabelos, sorriso feliz e contagiante, gesticulador, entusiasmado, parece sempre animado. Mas como ele é, fisicamente, na verdade não importa. Vou contar sua história:
Antes de nascer, antes mesmo de o espermatozoide fecundar o ovócito, sua alma estava sendo moldada pelo Arquiteto dos Espíritos. D-us faz cada um de sua forma, com sua peculiaridade, e a desse rapaz foi nascer com a habilidade de fazer as pessoas admirarem ele, seja por sua benevolência, seja por sua inteligência, por seu altruísmo, por suas habilidades. Mas toda boa particularidade tem um preço, e o desse menino era se desintegrar, implodir cada vez mais, a cada admiração.
"Você escreve muito bem, adoro ler tudo!"
Bum!
"Você é lindo!"
Bum!
"Nossa, você realmente é inteligente!"
Bum...
"Eu casaria contigo!"
Bum? Bum.
...
O preço da vida é a morte, mas essa morte, que corroi aos poucos a alma do rapaz e cria um vazio no meio de tantas implosões, faz jus literalmente ao que disse um célebre escritor "O que aprendi é que a tragédia da vida não é a morte, mas o que vai morrendo dentro de nós, enquanto vivemos". E que morte trágica a do magrinho.
A cada admiração, surgia um questionamento:
Escrevo bem? Adora ler o que escrevo? Então por que não me abraça e vem ler o que estou escrevendo?
Sou lindo? Então por que me privas do teu beijo, do teu corpo?
Sou inteligente? Conversa comigo! Por que não conversa comigo e prova da minha inteligência, enquanto eu conheço a tua?
CASARIA COMIGO? Então por que estou sozinho?
E um grande questionamento surge, a partir do que disse Roald Dahl: "Não tem a menor importância quem a pessoa é ou qual é a sua aparência, contanto que alguém a ame."
E quando todos dizem te amar, mas só o que você precisa é de amor, e não de palavras?
Esse é o vazio do menino. Esse é o meu vazio. Eu me dedico a cada alma que passa por meu caminho. Ouço, aconselho, escrevo, sorrio, abraço, beijo, simplesmente olho, falo falo falo, tudo. Eu amo cada pessoa que cruza meu caminho. Mas grande parte da vida pareço incapaz de sentir que me amam também. Me sinto sozinho, acuado, sentado chorando no canto do quarto escuro, onde todos dormem e a criança chora pelo medo de estar sozinha.
Eu sei que não importa quem sou, ou minha aparência. Um dia deixarei de ser e aparentarei pó tal qual acontece com todos. Mas quem me ama? Isso é importante. Isso traz solidão. Isso me deixa vazio.
E por isso as palavras me corroem: cada uma delas grita dentro de mim com eco, daquele que ecoa em caverna da era retrasada. Lindo! Lindo, lindo, lindo, do, do, do, do.... Sei, admiração. Sim, meu vazio.
Mas quando, por bondade divina, sinto o amor retribuido, não em palavras, mas no fundo do espírito, então eu me apaixono. E simplesmente tenho medo de perder aquilo que tão dificilmente aparece em minha vida. E eu me cobro, para que cada um dos elogios que recebi em minha vida sejam realmente verdade, concretos. Tenho que ser perfeito, não posso perder esse amor. E me preocupo tanto, me exijo tanto, exijo tanto de quem me ama, grito, esperneio, sufoco - sufoco-o e sufoco-me. E eu perco o amor. E eu encaro a triste solidão vazia, amargurada, transparente e ao mesmo tempo opaca por minha alma que deveria ser multicolor. E eu não aceito! Eu fujo de mim, fujo para ti, faço besteiras, perco a noção de mim, pois O QUE RESTA DE MIM?
Ninguém merece viver eternamente solitário, essa grande tragédia de alguém que quase nunca se sentiu amado, mas que ama cada criatura que passa por seu caminho.
E essa é a história do menino bem particular, abençoado pelo Arquiteto dos Espíritos com a admiração alheia, e amaldiçoado pela solidão quase que incessante.
Um ego incessante. Solitário e incessante.
Vazio.
Como viverá tantos anos mais, tão morto assim logo jovem?
Merece vida. Ganhará vida, nem que ganhe somente mesmo após a morte.
Que morte trágica a desse magrinho!