
Quando estou a céu aberto, rodeado por um vasto campo cheio de flores, agitado pela suave brisa que emana do ar, abro minhas mãos e uno-as pela lateral. Nelas, estão pequenos grãos e sementes. Não tarda muito, ouço o cantar dos passarinhos e ergo minhas mãos ao alto. Vejo o Sol, brilhante e radiante e a brisa se intensifica, e o ar adquire um leve perfume cativante, eis que alguns dos pequeninos começam a se aproximar de mim e um resolve pousar sob minhas mãos, atraído pelo que tenho a lhe oferecer - não só o alimento, mas minha mão delicada, um carinho suave e incondicional. Ele prova dos grãos e sementes, sente o calor das minhas mãos e canta para mim. E eu o acolho como se fosse parte de mim, mesmo que nosso contato seja tão breve, curto, passageiro, talvez, sintonizados estamos. Mas como mostrar a esse passarinho, ainda jovem e temeroso, que minhas mãos de fato são tão acolhedoras e que meus sentimentos são o de amor e afeto, e não posse e destruição? E como convencê-lo de que sob meus cuidados, há de viver mais e melhor, enquanto que a solta pelo campo está à vista de animais perversos e que só se interessam por sua carne, e não por sua beleza, pelo seu canto. Uma hora há de ele querer levantar voo novamente e eu aqui ficar, mesmo nesse local maravilhoso, com tudo perfeito. Todavia que há de perfeito em estar sozinho? Todos precisam de alguém, ou algo. E eu quero esse pequeno, mas tão maravilhoso passarinho pousado na minha mão, onde eu possa cuidar dele e ele cantar para mim.