quarta-feira, 12 de março de 2014

A Carta



O carteiro trouxe uma carta indigesta esta tarde. Quando a campainha tocou e percebi que era o entregador, rapidamente abri a porta e prendi os olhos no envelope para ver de quem vinha aquela correspondência. Como aquele que fica diante da morte, meu coração parou e um suor frio invadiu cada centímetro de meu corpo. Abri imediatamente o invólucro e tendo lido o conteúdo da carta aí, sim, me senti de fronte à morte. O carteiro me encarava, aguardava algo. E a resposta? Vamos, tenho de ir, você não irá responder? Eu fiquei imóvel. Os sentimentos que conflitavam dentro de mim consumiram toda minha energia e eu paralisado fiquei, sem conseguir agir. O carteiro estava inquieto, o tempo corria lá fora. Vi em seu rosto aquele de quem me remeteu a correspondência, perguntando "E aí, não vai responder?".

A única resposta que passava pela minha mente em nada tinha a ver com o que o autor da carta solicitava. Enquanto ele preocupava-se com seus próprios desejos, era com os meus que eu estava lidando. Me encurralei em meus próprios sentimentos. Pensei que poderia controlá-los, dizer que o que sentia era desimportante e prometer amizade, quando o que queria era algum envolvimento mais profundo. Não conseguia sequer admitir isso, até então. Mas era tão óbvio. Todos à volta me encaravam e sabiam o que eu escondia tão profundamente na alma. Só eu fingia não ver, não sentir, não desejar. Esse autocontrole, querer colocar acima dos desejos uma sensação de estabilidade, neutralidade, impessoalidade, não-vivacidade. Este ego que aqui escreve parece se sujeitar sempre à auto supressão, autodestruição. Há coisas na alma que são imutáveis e os desejos que dela emanam devem ser soberanos. Mas não para este ego.

A carta exigia a assinatura autorizando o casamento entre duas pessoas. Uma, o autor da carta. A outra, alguém que não este que aqui escreve. Vamos, eu tenho de ir agora, vai responder? O carteiro já não podia esperar mais. E eu implodi a cada curva da assinatura, dando permissão para que quem eu desejo não esteja só para mim, mas seja de outrem também - talvez brevemente só de outrem, e nada de mim.

O entregador pegou a carta assinada e saiu em correria. Eu, peguei a caneta e enfiei em meu peito, pois aquela dor humano algum poderia suportar.