domingo, 16 de março de 2014

A Máscara do Homem



Todos constroem máscaras, armaduras que protegem os próprios desejos e fraquezas íntimas. Não foi diferente com Amadeu. Era um homem jovem: corpo robusto envolto da pele branca e peluda; face fechada e ameaçadora mesmo quando em riso; vestia-se com neutralidade, um jeans básico e uma camiseta de cor mórbida; seu perfume era o próprio desodorante de axilas; sua voz era grave, falava pausadamente e emitia um sotaque característico, principalmente ao atender o telefone, quando seu cumprimento era sempre o mesmo "Comandante Amadeu, boa tarde". Vivia sob a máscara do arquétipo da masculinidade. Entretanto, à revelia da norma, ocultava seu desejo sexual por outros homens e também nessa armadura escondia suas fraquezas de ordem afetiva.

(Crônica não finalizada pelo autor.)

quarta-feira, 12 de março de 2014

A Carta



O carteiro trouxe uma carta indigesta esta tarde. Quando a campainha tocou e percebi que era o entregador, rapidamente abri a porta e prendi os olhos no envelope para ver de quem vinha aquela correspondência. Como aquele que fica diante da morte, meu coração parou e um suor frio invadiu cada centímetro de meu corpo. Abri imediatamente o invólucro e tendo lido o conteúdo da carta aí, sim, me senti de fronte à morte. O carteiro me encarava, aguardava algo. E a resposta? Vamos, tenho de ir, você não irá responder? Eu fiquei imóvel. Os sentimentos que conflitavam dentro de mim consumiram toda minha energia e eu paralisado fiquei, sem conseguir agir. O carteiro estava inquieto, o tempo corria lá fora. Vi em seu rosto aquele de quem me remeteu a correspondência, perguntando "E aí, não vai responder?".

A única resposta que passava pela minha mente em nada tinha a ver com o que o autor da carta solicitava. Enquanto ele preocupava-se com seus próprios desejos, era com os meus que eu estava lidando. Me encurralei em meus próprios sentimentos. Pensei que poderia controlá-los, dizer que o que sentia era desimportante e prometer amizade, quando o que queria era algum envolvimento mais profundo. Não conseguia sequer admitir isso, até então. Mas era tão óbvio. Todos à volta me encaravam e sabiam o que eu escondia tão profundamente na alma. Só eu fingia não ver, não sentir, não desejar. Esse autocontrole, querer colocar acima dos desejos uma sensação de estabilidade, neutralidade, impessoalidade, não-vivacidade. Este ego que aqui escreve parece se sujeitar sempre à auto supressão, autodestruição. Há coisas na alma que são imutáveis e os desejos que dela emanam devem ser soberanos. Mas não para este ego.

A carta exigia a assinatura autorizando o casamento entre duas pessoas. Uma, o autor da carta. A outra, alguém que não este que aqui escreve. Vamos, eu tenho de ir agora, vai responder? O carteiro já não podia esperar mais. E eu implodi a cada curva da assinatura, dando permissão para que quem eu desejo não esteja só para mim, mas seja de outrem também - talvez brevemente só de outrem, e nada de mim.

O entregador pegou a carta assinada e saiu em correria. Eu, peguei a caneta e enfiei em meu peito, pois aquela dor humano algum poderia suportar.

Artista, cirurgião de sua própria alma



Escrever não é só uma arte. É, por muitas vezes, também uma terapia. O lápis na mão cirurgicamente faz sublimar os sentimentos que incomodam o artista. Ele é sobretudo um cirurgião de sua própria alma.

Identifica o sentimento alvo, isola-o, esteriliza seu entorno das ideias conflitantes e, cuidadosamente, com o lápis retira do âmago da alma aquilo que ameaça sua paz, resultando em palavras, frases, parágrafos, textos, ou muitas vezes em apenas uma poesia, ainda que desconexa e surreal.

O ato da cirurgia é realizado sem anestesia. Quase que masoquista, o artista extrai o sentimento de si, sentindo-o ainda mais profundamente e dolorosamente. Faz sangrar palavras, mas sempre cuidando ao ponto de não causar hemorragias perigosas para a alma. Estanca o fluxo, quando necessário. Mas geralmente vai até o fim e então sutura o espírito, quando já tudo foi sublimado.

Dia a dia, a dor diminui e o que antes incomodava, agora torna-se apenas uma cicatriz para levar consigo na alma.

segunda-feira, 10 de março de 2014

O Engasgo



Algo inquieta-me, tento falar;
Estou engasgado, não sei mais quanto irei aguentar.

Serão os sentimentos?
Será a dor?
Explodem sensações;
Que dirão as emoções...
Explodem. Implodem-me.

Reconstruir um coração não é feito fácil.
Um ego ferido para se recompor tem de ser hábil!

A dor e o gozo andam lado a lado
O Id alcança o prazer da conquista
O superego amarga a derrota da segurança
O ego está embriagado
E eu, aqui, relegado.

É claro que desejo aventuras
Deixar-me levar pelos acontecimentos
Ignorar os efeitos, sem pensar sequer nas causas
Viver, sem raciocinar a todo instante
Mas isso é tão difícil: para mim, sobre humano.
Talvez porque eu seja sub humano...

Abaixo ou acima, mereço ser feliz!
Mas como alcançar tal feito
Se a todo instante me perco;
Desejo, desdesejo
Ignoro, enalteço
Amo, odeio
Eu, ainda eu mesmo.

Não me parece ser normal
Mas dizem que isso de normal ou comum inexiste,
Ou talvez apenas seja melhor não tratar mesmo assim...
De fato, é doloroso estar consigo mesmo sempre em riste.
É mais confortante aceitar-se e tentar viver como dá.

Mas como é difícil estar fora do controle...
Como se tudo na vida estivesse à nossa frente:
Como em um videogame,
Eu com o controle, a vida na tela.
Antes fosse...

E o pior: já estou tão acostumado com esses questionamentos!
Percebo-me como um CD arranhado, voltando sempre ao começo.
Isso é desmotivador. Enlouquecedor.
No tempo do movimento, estar parado é vivenciar a dor.

Engasgo-me com a dor.
Não sei quanto mais é possível aguentar.
Mas a vida é superação, tenho que controlar toda emoção.
É muito controle para um poema só.

Cuspo esse autocontrole engasgado
E engulo o prazer dos momentos que vivi
Quando estava sem medo de ser feliz
Ainda que insatisfeito com o que depois senti.

O aniversário em que meninos tornam-se homens



Lucano acordou de seu sono rotineiro com uma sensação diferente: frio no estômago, coceira nos pés, mãos inquietas - era seu aniversário. Essa é uma data que nunca se sabe o que pode acontecer, mas que - diferente de qualquer outra (exceto talvez o ano novo) - sempre remete à esperança de que algo diferentes, especial vai ocorrer. Finalmente, chegara aos dezesseis anos. Seu dia foi festivo e ninguém deixou passar a comemoração da data: sua mãe, inclusive, lhe preparou um delicioso bolo de cenoura, com o qual deliciou-se.
Já chegava o final do dia e Lucano estava em seu quarto, após o jantar, estudando, quando seu pai bateu na porta e entrou.
 - Lucano, gostaria de conversar algo contigo. - o filho assentiu com a cabeça - Chega uma idade em que os meninos precisam se tornar homens. E o papai acha que tu já estás pronto para te tornares um homem. Concordas, filho?
 - Não sei, pai... quando estamos prontos para nos tornarmos homens?
 - Hoje vou te levar a um local para comemorarmos teu aniversário e teres a oportunidade de te tornares um homem. Como amanhã não tens aula, pois é sábado, não tem problema em não dormires cedo. Vai, te arruma que estarei esperando lá embaixo.
 - Pai, tornando-me um homem, poderei ser padre?
 - Pare com essas tolices, Lucano! A partir de hoje, deixarás essas bobagens de lado e aprenderás a ser um homem como o papai.
 - Tá, e a mamãe irá junto conosco?
 - Não, onde iremos só homens podem ir.
 - Não sei se quero ir, pai...
 - Guri, te arruma e não questiona!

(quer que a puta ame ele, nao deseja sexo vazio)

um menino de 16 que vai a uma prostituta e pergunta por que ela não pode ser só dele
ela não é capaz de amá-lo?
ele não merece seu amor?
ele não pode ser único?



(Capítulo não finalizado de um romance abandonado pelo autor. Capítulo anterior: http://acnaila-ad-acra-a.blogspot.com.br/2013/06/capitulo-ii-um-cobertor-de-estrelas.html)