Eu caminhava por uma rua escura, sob pedras rigorosamente polidas e encaixadas, somente separadas por uma regular faixa de areia. Não sabia exatamente o porquê de estar ali, mas na vida tudo tem um motivo e eu, sabendo-o ou não, deveria prosseguir caminhando.
Não lembro minha história, a não ser do meu primeiro passo nessa rua, escura e assustadora. Procuro entender por que não sinto meu coração bater - mesmo sabendo que natural é não perceber as batidas -, mas só o fato de eu procurar entender essa situação já envolve uma motivação dentro ou além da minha compreensão.
Meus pés, descalços, em uma das únicas vezes na vida sentem o chão quente sem fazer calor do Sol - estava eu banhando-me na luz da Lua nesse caminhar sem rumo -, o que me fez pensar que de fato estava eu frio, e a mão no meu peito, seguida da mão no meu pescoço, e no meu punho me confirmava que não havia pulsação. Tudo parava, tudo tão frio, sombrio e inanimado.
Mas eu caminhava, e nas casas ainda havia a luz nas varandas, e na rua havia o andar dos bêbados, e no bar o murmúrio dos alcoolistas. Que acontece quando tudo parece estar tão morto quando se sabe que ainda há vida ao seu redor? Morto. A morte me acometera.
A chuva denuncia que vendo-a sinto em minha pele - já que minha consciência está condicionada a sentir a gota vendo-a caindo em meu corpo. Ainda por isso sei que a palidez das minhas mãos, o roxo infiltrando-se na minha fina camada de pele, não é frio, nem escuro, tampouco coisa da minha cabeça - é, pois, a morte adentrando em minha consciência.
Mas diz o orador que caminhar é preciso, e eu não posso parar. Mesmo morto na realidade na qual estava habituado, a vida persistiu de uma outra forma. De fato, não me abalo pelo sangue seco no meu abdome, com uma ferida que não cicatrizou e sabe D-us se minha consciência permitirá que cicatrize.
O dia amanhece e aí sim tenho a certeza de que morte não é morte, e mesmo sobre ela existe a vida. Sou eu de novo vivo, de cor não mais pálida, de pele não mais roxa, de pulsos agora latentes - o dia está claro, e minha alma renasceu para a vida nessa nova realidade. Meu passado pouco importa agora, pois sei que meu futuro está em minha frente, no rumo do horizonte tão belo que me ponho a observar nesse momento, roxo, vermelho, laranja, amarelo, vivo, vida, mesmo na morte.