terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ironia, sarcasmo e fantasia

Livro: SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
ISBN: 978-85-378-0239-7
Faixa de Preço: R$35,00
Qualidade: Fantástico!







Quem diria que eu conheceria o Nobel da Literatura justo por uma indicação de leitura da faculdade... Ensaio sobre a  Cegueira, de Saramago, é um livro extraordinário. Aborda ética, comportamento, fantasia, Medicina, tudo - tudo mesmo - e com uma qualidade que antes eu poucas vezes havia visto.
Tudo começa quando um motorista para no trânsito no sinal verde. Podia estar desatento, à revelia, ou até mesmo morto. Mas estava cego - de uma cegueira branca (e não negra, como deduziria-se naturalmente). A partir daí desenvolvem-se diversas situações interessantes, de maneira que o mundo torna-se cego, exceto por uma mulher. Eu, particularmente, diria mais que uma mulher. Só lendo para compreender plenamente a servidão, ética e compaixão que a esposa do médico tinha...
Percebe-se com essa personagem que muitas vezes o que parece ser um dom é, na verdade, uma responsabilidade. Enclausurados em um antigo manicômio um bando de cegos viveriam como - sem ter nenhuma adaptação estrutural, nada? Mas essa mulher resignadamente atende às necessidades dos que dela perto ficaram. E estabelece em si própria as contestações morais e existenciais sobre ajudar ou não o próximo.
A riqueza de detalhes e a maneira como escreve Saramago nos transporta mentalmente a essa história, como se fizéssemos parte dela. Eu vi o chão do manicômio coberto de excrementos, vi a cidade apocalíptica que descrevera, senti a dor e vergonha das mulheres estupradas para conseguir alimento, vivi essa história como se fizesse parte de algo meu. Poucos são os livros que despertam isso.
Por isso ele é fantástico! Lembra-me muito Machado de Assis, mas por ser mais recente permite uma maior proximidade com as situações descritas, de maneira que me envolvi muito mais com Saramago.
É um livro para quem está preparado para uma leitura densa, talvez pesarosa e repugnante em certos momentos, mas que recompensa na análise minuciosa das situações e pessoas com uma dose gostosa de ironia, sarcasmo e fantasia (não exagerada, ainda bem). Recomendo!