terça-feira, 5 de abril de 2011

Arte



Por força de hábito, quase começo essa crônica com "Certo dia...", já que é o que me vem à cabeça quando penso em escrever esse tipo de texto. No entanto, é com muito maior frequência que "um certo dia" que, andando pela rua, ou mesmo trancafiado em uma sala, ou sentado no ônibus, ou distraído na biblioteca universitária, simplesmente, da situação em que me encontro, surge na minha mente uma ideia ou um questionamento o qual me faz pensar "nossa, que vontade de escrever sobre isso!".
Alguns momentos da vida permitem que eu consiga satisfazer esse desejo, como ocorreu com aquela crônica do sapato, mas saiba: a vida acadêmica de um estudante de medicina propicia um curto tempo livre, no qual se pode fazer as coisas as quais gosta. No entanto, meu maior prazer é dormir. O segundo, ficar no computador - mesmo sem fazer nada, mas ficar na frente dele. O terceiro, ler. Por fim, escrever.
Não é à toa, portanto, que fico durante o ano letivo tanto tempo sem escrever no meu blog - tanto tempo sem cultivar minha imaginação, satisfazer meus desejos por histórias, mundos, criações que singelas brotam na minha mente e eu, na melhor das intenções, tento colocá-las em letras, palavras, frases conexas e instigantes nos textos os quais escrevo.
Por isso escrevo agora essa crônica, a qual representa mais que eu conseguir arranjar um tempo livre dedicado à escrita; representa, pois, minha necessidade em transcrever um questionamento: onde vai parar tanta criação não escrita, ou não pintada, ou não cantada - tanta arte que não se efetivou?
Minha mente é cruel. Quando imediatamente não utilizo a inspiração criativa e imaginativa que tive para transcrever, ela me faz esquecer a ideia. Não importa quanto tempo eu aguente repetindo palavras-chave que possam me fazer lembrar da inspiração, simplesmente esqueço.
Mas tudo nesse universo é tão perfeito e tão conexo que não consigo acreditar na possibilidade de que essas inspirações, pré-criações, simplesmente são descartadas no vazio. Já disse um sábio que "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", e eu me indago: será que essas ideias artísticas realmente não se perdem, e acabam por se transformar? Ora, neste caso, no que se transformariam?
Pois eu já imagino um outro mundo, o qual foge à nossa visão e demais sentidos, no qual as ideias simplesmente fluem, vagando por entre as pessoas e, quando as pessoas sintonizam-nas mentalmente por algum motivo, ocorre a inspiração e aquela vontade conhecida dos artistas em escrever, pintar, cantar. Todavia, quando não escrevem, pintam ou cantam, e a sintonia se desfaz, as ideias simplesmente voltam a fluir longe da mente de quem as pensou, supostamente torcendo para que outra pessoa sintonize-a novamente e de fato a transforme-a no que toda inspiração deve se tornar: arte.
Tanta metafísica e especulações há nesse mundo que meu único alívio nesse momento é ter escrito essa crônica e satisfeito minha vontade de escrever, e concretizado minha inspiração. Não importa se se eu não escrevesse a ideia iria para o nada, ou para esse mundo de pré-criações que fluem de mente em mente, pois para essa inspiração eu dei o destino que merece: arte.