segunda-feira, 13 de agosto de 2012
A Coincidência. Coincidência?
Pedro já estava em seus trinta anos, quando os poucos fios brancos dos vinte já se haviam multiplicado, formando quase mechas brancas em seu cabelo cor de fogo. A pele alva, manchada com as sardas no rosto, já denotava sinais de seu envelhecimento, com algumas rugas - embora as espinhas, as quais sempre o incomodavam, ainda persistissem e podiam dar um ar de jovialidade àquele homem que se aproximava cada vez mais da meia idade. Sua expressão, no entanto, continuava a mesma: inerte, talvez por uns considerada não muito amigável. Era o que seus amigos avaliavam, até conhecer realmente a inércia do rapaz ao vê-lo desmaiar em pleno refeitório da universidade, onde estudava para seu doutorado.
Pê, pê, pê! Pêêê, por favor, Pedro! Acorda!, falava uma amiga em seu ouvido. E, pálida e lentamente, Pedro acordou de sua transitória inércia absoluta. Era a quinta vez que isso acontecia naquele ano.
- Pedro, tá tudo bem contigo? Como estás se sentindo?
- Estou bem, Fabi... É como sempre, só estou um pouco sem forças... Não sei mais o que eu faço!
- Pê, não é possível que os médicos não tenham descoberto ainda o que aconteceu, querido. Tenta ir atrás de algum especialista, não sei... Está cada vez mais frequente esses teus desmaios! Estou preocupada!
Nisso, um amigo do Pedro resolveu intervir:
- Pedro, eu já comentei contigo que eu sou espírita, não é? Sabe, em muitos casos os quais a ciência não consegue explicações, o espiritismo consegue encontrar uma resposta. Estou preocupado contigo, meu amigo. Como a Fabi falou, é cada vez mais recorrente esse teu desmaio e eu venho percebendo que tens estado estranho ultimamente... Eu compreendo que se não compartilhasse conosco o que está acontecendo direito contigo é porque no momento não te sentes à vontade. Quero dizer que estou aqui para o que precisares e te sugiro que vá a uma casa espírita conhecer o trabalho que lá é realizado e ver se de alguma forma podem te ajudar com isso.
- Biel, deixa o Pedro, sério... ele precisa é de um especialista! Tem que encontrar a causa desse problema... Não dá para continuar assim.
- Não, Fabi, realmente eu estou me sentindo diferente... Também não sei o que está acontecendo. Agradeço tuas palavras, biel, mas também não vejo por que visitar o centro espírita... Tu sabes que minha família é católica e, embora eu não seja nenhum praticante, busco viver minha vida respeitando isso. Mas agradeço mesmo tua preocupação e tudo o mais.
- Tudo bem, Pedro, mas saiba: eu estou sempre aqui, para sempre que for preciso, meu amigo.
- Eu também, Pê.
- Obrigado, Biel e Fabi. Obrigado mesmo! Vou ficar um pouco aqui sentado, tomar uma água... Até logo!
E o dia passou tão rápido para o Pedro, foi tudo tão automático, que logo chegou a noite. Ele, em sua cama, pensava sobre o que estava acontecendo. Por que ele andava tão apático - mais que de costume -, a vida parecia não dar prazer, ele não conseguia se concentrar direito em seus estudos, e ainda tinham esses desmaios! O que estava acontecendo? Sempre fora tão saudável, tão de bem com a vida, cheio de amigos... E dormiu, com essa preocupação.
Pedro... Pedro... Pedro! Levanta teus olhos, olha para mim. Quem é você? Nossa, não consigo nem abrir meus olhos direito... de onde vem toda essa luz? Abriu os olhos. Era um moço loiro alto. Asas? Que enormes asas são essas, ele deixou escapar seu pensamento pela boca. Você é um anjo ou algo do tipo? O que quer comigo, questionou preocupado. Meu irmão querido, você está passando por um momento delicado de sua vida, e isso se manifesta com todos esses problemas que vens enfrentando, como os desmaios. Você precisa buscar ajuda. Olhe onde estamos agora: é aqui que deverás vir, onde há quem possa te ajudar. Pedro olhou para cima e viu escrito "C.E. Paz e Luz". Acordou.
Que sonho estranho foi esse? Nossa, como estou molhado... o que foi isso, pensou consigo em voz alta. Levantou-se e foi pegar um copo d'água. Ficou intrigado, mas o sono logo retornou e a ele se rendeu.
Era sábado já, o dia nasceu e o ruivo acordou bem disposto. Tomou seu café-da-manhã e foi logo ao mercado fazer as compras da semana.
- Ei, Pedro! Pedro!
Era Gabriel (Biel).
- Oi, meu querido! Tudo certo contigo?
- Tudo bem, sim. Ei, tenho algo para te dar! - e entregou um folheto.
- Deixe-me ver... - Pedro ia batendo com os olhos quase sem atenção, quando assustou-se. Ao lado de uma imagem de um anjo com luzes saindo de si, escrito estava "Centro Espírita Paz e Luz".
- É o centro espírita que minha família frequenta. Pensei em te dar, caso algum dia precises ir lá e eu não esteja por perto para te levar.
- Obrigado. - falou, sem raciocinar direito, Pedro. Ainda estava assustado com o ocorrido, pois lembrava-se perfeitamente daquelas letras em tom azul escuro escritas na parede branca do templo no qual o anjo apareceu em seu sonho.
- Viu, já vou lá pagar as compras. Minha filha está em casa com a babá, e não gosto de deixá-la muito tempo sozinha. Fique bem, Pedro!
- Igualmente, Biel! Até segunda!
E não foi só naquele sábado monótono que o ocorrido ficou em sua cabeça. Durante todo o final de semana, Pedro ficou em sua casa, sentado em seu sofá lendo o livro novo que comprara, tendo agora como marca-páginas o pequeno informativo da casa espírita. Não leu nem dez páginas em dois dias quase inteiros. Mais olhava para aquele informativo, para a imagem do anjo, para as letras, esse folheto lhe era mais interessante que o próprio livro novo. Não, não pode ser verdade. Estou ficando maluco. É muita coincidência!
Embora a monotonia do final de semana em casa, aliada à intriga dos ocorridos nos últimos dias, não fosse suficiente para tornar pior aquela segunda-feira, ainda assim era uma segunda-feira como todas: desgostosa, que anseia fortemente por preguiça ao acordar. Vontade de continuar sempre na cama, dormindo, lendo, refletindo. Longe de tudo e de todos. Apenas consigo.
Pedro arrumou sua pasta, e colocou entre os livros da universidade o seu novo livro, com o marca-páginas intrigante. Resolveu ir caminhando para o local de estudo, coisa que nunca fazia sem ser de carro - embora entre sua residência e a universidade o trajeto não exigisse mais que quinze minutos de caminhada. Pensativo, caminhava lentamente, olhando para baixo. Ainda o intrigava o que aconteceu. De repente, distraído, confrontou-se com um poste e caiu no chão sem reagir. Nem direito a susto o pobre rapaz teve. Mais um desmaio.
Acordou em uma maca, ao lado de uma mulher desconhecida. Não enxergava ainda muito bem, mas podia ver bem seus seios avantajados e cabelos longos e dourados. Concentrou-se, abriu e fechou os olhos. Uma linda mulher!
- Pedro, não é? Eu já esperava por você.
Sequer pensou na estranheza do que a mulher havia falado. Distraiu-se por um instante e olhou para o teto: em sua frente estava uma parede branca, com o escrito "C.E. Paz e Luz" em letras azuis escuras. Chorou.
- Durma, meu irmão. Nós vamos te ajudar. - falou a linda mulher.
E dormiu.
(Este é o primeiro conto de uma série que será publicada no blog. Em breve, os próximos serão lançados, dando continuidade à história.)
