domingo, 27 de fevereiro de 2011

Morte e Vida

Eu caminhava por uma rua escura, sob pedras rigorosamente polidas e encaixadas, somente separadas por uma regular faixa de areia. Não sabia exatamente o porquê de estar ali, mas na vida tudo tem um motivo e eu, sabendo-o ou não, deveria prosseguir caminhando.
Não lembro minha história, a não ser do meu primeiro passo nessa rua, escura e assustadora. Procuro entender por que não sinto meu coração bater - mesmo sabendo que natural é não perceber as batidas -, mas só o fato de eu procurar entender essa situação já envolve uma motivação dentro ou além da minha compreensão.
Meus pés, descalços, em uma das únicas vezes na vida sentem o chão quente sem fazer calor do Sol - estava eu banhando-me na luz da Lua nesse caminhar sem rumo -, o que me fez pensar que de fato estava eu frio, e a mão no meu peito, seguida da mão no meu pescoço, e no meu punho me confirmava que não havia pulsação. Tudo parava, tudo tão frio, sombrio e inanimado.
Mas eu caminhava, e nas casas ainda havia a luz nas varandas, e na rua havia o andar dos bêbados, e no bar o murmúrio dos alcoolistas. Que acontece quando tudo parece estar tão morto quando se sabe que ainda há vida ao seu redor? Morto. A morte me acometera.
A chuva denuncia que vendo-a sinto em minha pele - já que minha consciência está condicionada a sentir a gota vendo-a caindo em meu corpo. Ainda por isso sei que a palidez das minhas mãos, o roxo infiltrando-se na minha fina camada de pele, não é frio, nem escuro, tampouco coisa da minha cabeça - é, pois, a morte adentrando em minha consciência.
Mas diz o orador que caminhar é preciso, e eu não posso parar. Mesmo morto na realidade na qual estava habituado, a vida persistiu de uma outra forma. De fato, não me abalo pelo sangue seco no meu abdome, com uma ferida que não cicatrizou e sabe D-us se minha consciência permitirá que cicatrize.
O dia amanhece e aí sim tenho a certeza de que morte não é morte, e mesmo sobre ela existe a vida. Sou eu de novo vivo, de cor não mais pálida, de pele não mais roxa, de pulsos agora latentes - o dia está claro, e minha alma renasceu para a vida nessa nova realidade. Meu passado pouco importa agora, pois sei que meu futuro está em minha frente, no rumo do horizonte tão belo que me ponho a observar nesse momento, roxo, vermelho, laranja, amarelo, vivo, vida, mesmo na morte.

Um sapato, um mistério



Um sapato jogado na rua. Não um par, mas uma simples unidade de sapato. Poderia ser de uma menina que fugia de um desses malandros atualmente comuns nas grandes cidades, ou mesmo de uma velha senhora que o abandonou por machucar seu pé. Um sapato que fatalmente se suicidou do décimo andar do prédio ali perto, ou aquele que a esposa joga para fora do carro ao encontrá-lo no carro do marido sabendo que ele não é seu. Um sapato, simples sapato, abandonado no meio da rua. Sua história, por mais curiosa que possa ser, incógnita é e misteriosa será, até que seu dono venha pegá-lo de volta ou que o lixeiro enterre a esperança dos interessados jogando-o no lixo comum. Ele estava ali por algum motivo e, por mais ou menos incrível que pareça, continuará ou não ali por um propósito do qual poucas pessoas (quem sabe nenhuma) seja capaz de entender. Como o mundo surgiu? Qual o futuro da humanidade? Quem sou eu? Qual a história desse sapato ali, abandonado? Mistérios que frustram alguns, mas alimentam a imaginação dos escritores e dos sonhadores - obrigado D-us por eu não saber de tudo, já que a vida se torna muito mais interessante assim.

Eu



As luzes piscam e quando olho para o alto não vejo um céu azul, tampouco o arco-íris colorido - vejo múltiplas cores estampadas nesse teto escuro, refletidas na fumaça do ambiente. Toca uma música agitada e meus músculos se recusam em permanecer parados, têm de se mover. Não importa o quanto apertado no meio dessa gente eu esteja, já que a música não para, meu corpo não sossega, minha alma anseia por liberdade. O som, a dança, tudo liberta a alma e traz o êxtase em estar livre, nem que seja só por um segundo, um minuto, ou mesmo que seja uma hora ou um dia. Livre, feliz, humano - eu mesmo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ironia, sarcasmo e fantasia

Livro: SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
ISBN: 978-85-378-0239-7
Faixa de Preço: R$35,00
Qualidade: Fantástico!







Quem diria que eu conheceria o Nobel da Literatura justo por uma indicação de leitura da faculdade... Ensaio sobre a  Cegueira, de Saramago, é um livro extraordinário. Aborda ética, comportamento, fantasia, Medicina, tudo - tudo mesmo - e com uma qualidade que antes eu poucas vezes havia visto.
Tudo começa quando um motorista para no trânsito no sinal verde. Podia estar desatento, à revelia, ou até mesmo morto. Mas estava cego - de uma cegueira branca (e não negra, como deduziria-se naturalmente). A partir daí desenvolvem-se diversas situações interessantes, de maneira que o mundo torna-se cego, exceto por uma mulher. Eu, particularmente, diria mais que uma mulher. Só lendo para compreender plenamente a servidão, ética e compaixão que a esposa do médico tinha...
Percebe-se com essa personagem que muitas vezes o que parece ser um dom é, na verdade, uma responsabilidade. Enclausurados em um antigo manicômio um bando de cegos viveriam como - sem ter nenhuma adaptação estrutural, nada? Mas essa mulher resignadamente atende às necessidades dos que dela perto ficaram. E estabelece em si própria as contestações morais e existenciais sobre ajudar ou não o próximo.
A riqueza de detalhes e a maneira como escreve Saramago nos transporta mentalmente a essa história, como se fizéssemos parte dela. Eu vi o chão do manicômio coberto de excrementos, vi a cidade apocalíptica que descrevera, senti a dor e vergonha das mulheres estupradas para conseguir alimento, vivi essa história como se fizesse parte de algo meu. Poucos são os livros que despertam isso.
Por isso ele é fantástico! Lembra-me muito Machado de Assis, mas por ser mais recente permite uma maior proximidade com as situações descritas, de maneira que me envolvi muito mais com Saramago.
É um livro para quem está preparado para uma leitura densa, talvez pesarosa e repugnante em certos momentos, mas que recompensa na análise minuciosa das situações e pessoas com uma dose gostosa de ironia, sarcasmo e fantasia (não exagerada, ainda bem). Recomendo!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

House? Muito mais!

Livro: SANDERS, Lisa. Todo paciente tem uma história para contar. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2010
ISBN: 978-85-378-0239-7
Faixa de Preço: R$30,00
Qualidade: Bom



Confesso: o que me levou a comprar esse livro foi o famoso logo "HOUSE" inscrito no topo de sua capa. Mesmo assim não havia me atraído entre os demais livros os quais comprara e ainda não havia lido (ou seja, aqueles os quais repousam na minha estante), mesmo após ter me aprofundado na disciplina da faculdade chamada Medicina Baseada em Narrativas, na qual compreendemos a importância da literatura e outras artes no ensino médico - digo isso porque o título da obra de alguma forma me remetia a ela. No entanto, após ler a obra (bem depois do término da cadeira MBN), muitas outras coisas me pareceram mais importantes e legais no livro do que simplesmente levar a logomarca de um seriado famoso, ou me recordar de uma disciplina interessante da faculdade.
Esse, de fato, é um bom livro. A autora utilizou muito bem a tradicional estrutura de apresentação de casos clínicos para o desenvolvimento de suas ideias, principalmente focadas na filosofia médica - assunto apagado, mas em ascensão na Medicina. Estrutura, aliás, pertinente à área, já que um livro puramente filosófico ou teórico demais não despertaria o interesse dos médicos e estudantes; embora já enraizada em experiências práticas tem motivada sua leitura. Traz opiniões das quais compartilho, como a importância do exame físico, a limitação tecnológica (por mais avançada que pareça ser) e os próprios limites do pensamento médico.
É realmente uma reflexão gostosa sobre a Medicina. Traça seu futuro com base em experiências passadas e presentes e lança-nos desafios importantes dessa forma. Apesar de seu aspecto House, com casos complexos e misteriosos, o livro fala da história do paciente, justo o que o personagem pouco dá atenção no seriado, mas que na Medicina exerce papel fundamental - e é alvo do meu amor à futura profissão na qual atuarei.