Antes de começar a ler esta carta, deves saber o que ela representa.
Geração após geração, foi passado desde meus ascendentes até mim uma história e, agora que encontrei um meio de levá-la à raiz dessas gerações, é minha esperança que,numa outra realidade nesse futuro que vivo, eu possa comunicar-me contigo e exaltar palavras de conforto, justiça, paz, vida! – e não o que venho te falar agora.
Tudo começou quando um pai contou ao seu filho a verdade. Todos os outros pais ou fingiam não saber dela, ou mentiam, iludiam com histórias que mais pareciam bonitas a reais, ou mesmo esbanjavam na realidade sua crueldade e tirania. A verdade que contou a seu filho, disse ele, seria a liberdade – a liberdade não só do filho, mas de todos aqueles que viviam sob o regime que a sociedade instituiu naquele tempo.
Houve uma época em que D-us por um motivo que desconheço deu ao homem o governo de sua criação na Terra. Teve ele o domínio sobre os minerais, as plantas, os animais e, com o estímulo do seu raciocínio, alcançou o domínio da natureza como (quase) um todo. Por muito isso foi sadio, permitiu sua estabilidade diante da terra que D-us lhe confiara. Até que, um dia, um grupo desses homens – por ambição e poder – extinguiu o (quase) do domínio da natureza como um todo, pensando no que poderia ganhar com a proliferação desse pensamento e essa ideia venceu a humanidade, aprisionando-a ao materialismo, o qual tivera seu principal alicerce no consumismo e no desejo individual da sociedade em ser mais que seu semelhante.
Todo o homem alcançava esse conhecimento do que participava em algum momento de sua vida antes de proporcionar a um novo ser sua estadia na Terra, seu filho. Todavia, por mais desumano que isso possa parecer – e infelizmente era desumanidade o que imperava naquele tempo -, escondia isso de seu filho, fazendo-o viver anos aprisionando-se cada vez mais naquilo que ele próprio havia se feito prisioneiro.
Existe algo na consciência humana que faz o homem, em um certo momento de sua vida, acomodar-se com o que já existe e tentar tirar o máximo proveito disso, mesmo sabendo que podia ser mais, viver mais. E o sistema que fora implantado na sociedade garantia que, até alcançar esse momento, o homem seria privado da verdade.
Aquele pai, iluminado com o amor dos olhos do filho e com a pureza de sua mulher ao lhe estender a mão em seu último suspiro, ao dar à luz, sentiu algo do que um dia haviam chamado humanidade – e era dessa humanidade que um dia falou um profeta ter sido o homem feito à semelhança de seu Pai. Esse sentimento brotou-lhe na consciência o dever de transmitir a verdade ao seu filho, de não deixá-lo aprisionar-se, de libertá-lo de seu destino e, consigo, todas as vítimas dessa conspiração social.
“O homem não domina a natureza, nem deve dominá-la. Ele é guardião dessa criação divina e sua força deve agir no sentido de mantê-la, e não consumi-la para si.” Foi o que o pai cultivara na consciência do pequeno filho como uma semente, para que brotasse na maioridade uma esperança de transformação.
Talvez houvesse outros filhos na mesma situação em contato com esse, ou as circunstâncias fossem mais favoráveis, ou mesmo não houvessem tantos pais covardes, crueis, manipuladores – e manipulados -, a história que me foi passada pelas gerações a mim antecessoras seria diferente desta que estou te contando.
O pai bem fizera sua parte, inspirado por um sentimento maior e divino, mas o filho não pudera ser privado das armadilhas desse sistema que muito governou a sociedade. Ao atingir idade suficiente e não ter mais o pai ao seu lado, o rapaz já sabia da verdade, acreditava nela e queria fazer algo para que outros também acreditassem que ela seria a liberdade de todos e trabalhassem por ela, assim como ele estava disposto. Reuniu em sua casa seus melhores amigos, deu-lhes comida, bebida e queria alimentar-lhes também com a verdade a que tivera acesso. Em troca, foi taxado de “maluco”, “ignorante”, “burro”, “atraso da sociedade” e, por um instinto social, o jovem partiu para uma cruzada pessoal junto de uma bela moça – a qual tomou por sua companheira e mulher - para o interior das terras que D-us confiou aos homens, instalando-se no meio da floresta em uma cadeia de montes ao Oriente. E lá fundou sua casa, estabeleceu sua família e contara a cada um de seus filhos – para que contassem também aos pequenos destes – a história sua e de seu pai. Dessa forma, instituiu-se naquele local, com um tempo, um vilarejo dos descendentes dessa família. À terra era dado o vegetal que transforma seus minerais em coisa viva; ao animal, o direito de alimentar-se em abundância desse vegetal e viver livre sobre os pastos que rodeavam os montes; e ao homem, de preservar esse patrimônio divino, dando-lhes o direito de viver enquanto seu tempo durasse e alimentar-se deles somente nesse momento em que a vida estivesse em seu último segundo. Fez, portanto, aquele filho a vontade de D-us e permitiu que essa história e esses valores chegassem até mim, geração após geração.
Mas antes de chegar a mim nessa história, algo mais aconteceu. Não foi a ira de D-us, nem da própria natureza, a qual causou o que vou te contar, mas a consequência da própria escolha dos homens. Por mais que muitos soubessem da limitação da natureza em provir sustento a esse selvagem desenvolvimento e domínio brutal tão ambicionados pelo homem e até alguns apresentassem alternativas menos devastadoras – o que chamaram de sustentabilidade -, o pior se tornava inevitável, o mundo estava prestes a dar seu último suspiro. Entretanto, como te falei, não foi a mão de D-us, nem o golpe de vingança da natureza que causou isto. O extermínio da sociedade ocorreu pelas próprias mãos sujas de cinzas das queimadas, sangue dos animais, toxicidade implantada na natureza, pelas mãos nas quais agora eram conferidas uma cor mais rubra, mais familiar, do sangue humano - mãos dos homens. Toda a sociedade fora vítima e autora de seu próprio fim. A desumanidade que nascera da desigualdade entre as criações divinas, a qual estendera-se à desigualdade entre os próprios homens, culminou com o sentimento generalizado de ambição, poder, ódio e destruição. Intolerância, tirania, preconceito tornaram-se tão comuns que todos os Estados preenchiam-se desses preceitos e, por fim, não foi só a bomba nuclear, a arma de destruição em massa, a podridão social e essa total desumanidade que destruíram tudo o que fora construído e confiado ao homem por D-us, mas tudo isso em conjunto.
E, agora sim, chego à minha existência. Por algum motivo que eu também desconheço, de tudo que pereceu nesse mundo, nosso vilarejo – ainda sustentado nos valores e história de meus ancestrais -, não fora destruído. É como se fizéssemos parte de uma outra realidade, não sei. A única coisa que sei é que tenho em minhas mãos agora essa carta, dada a mim por D-us, para que escrevesse àquele pai – tu - , ancestral de toda minha história. E para que seja entregue por ti, meu ascendente, ao teu filho, de maneira a mostrar a ele que, por mais que possa alcançar em seu futuro a liberdade que tu sonhaste para ele e vida em abundância aos seus descendentes em preceitos elevados, não há coisa pior que ter essa comunidade ideal, nosso vilarejo, em meio a tanta destruição. Essa visão de que temos, aqui de nosso monte – que agora permite ver todo o mundo -, é a prova mais real e torturadora de que, em busca daquilo que D-us nos havia concebido, esquecêramos de um dos maiores valores por ele nos passado, a fraternidade. Teu filho terá a oportunidade, por ti concedida, de ter acesso à verdade em seu tempo mais propício e será levado a trabalhar por ela num mundo perdido de valores, imerso numa ilusão terrível. E agora estará em prova, sabendo disso tudo, seu valor fraterno em não desistir de levar a verdade também aos seus semelhantes – de insistir com seus amigos para que acreditem nele -, abandonando a ideia de construir um pequeno vilarejo consoante com a Palavra de D-us e adotando o ideal de elevar todo esse mundo àquilo que o homem se comprometeu perante seu Pai. Dê a ele esta carta, a qual chegou a ti por intermédio divino, para que ele realmente prossiga com seu trabalho pela verdade que, em momento oportuno, darás a ele o direito de conhecer. Saiba que não há, realmente, pior visão do que viver num local ideal em meio à devastação, à destruição, à falta de vida – e não há pior sentimento do que a solidão e o arrependimento, resultado do abandono que o próprio indivíduo causou. Atentem, tu e teu filho, a essas minhas palavras e transmitam aos seus semelhantes, para que toda a Terra tenha o direito de existir sob os preceitos d’Aquele que a todos nós deu a vida e confiou sua própria criação. A mudança de suas atitudes é a minha esperança de, numa outra realidade, poder ver vida sobre todas essas terras e, se assim me for permitido por D-us, enviar-te uma carta totalmente diferente desta, esbanjando a vida, a prosperidade plena que nasceu dos atos teu e de teu filho.
De seu descendente.
