sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Mão



O Sol sequer tinha nascido e Patrícia acordou como parecia um dia qualquer, lavou o rosto, tomou seu café-da-manhã, trocou de roupa e tornou a caminhar para seu trabalho. Ela era professora e se empenhava num projeto do governo de alfabetização dos presidiários da zona rural. Desde criança, quando via o preconceito da sociedade com esses indivíduos, se irritava e desejava fazer sempre algo para mudar essa realidade. Afinal, todos erram ao menos uma vez na vida e é direito de qualquer errante uma oportunidade de provar que pode acertar. Mas definitivamente aquele não era um dia qualquer.
Ao chegar na penitenciária, uma professora substituta já estava lá, pois a regular havia engravidado e aderiu à licença. Jurou ter presenciado a pior situação de sua vida quando essa mulher proferiu as seguintes palavras “Como é que são esses vagabundos aqui? Lá na outra penitenciária a coisa era braba, além de estar cheio desses burros que pensam conseguir aprender algo, tinha uns pilantras barra pesada e pior, uns malucos. Um dia estava dando aula quando ouvi um grito, era uma professora que foi morta por um preso pirado, o qual estava escondendo a faca no bolso. A ignorante pediu para que ele mostrasse o que tinha lá e ele esfaqueou a mulher num golpe fatal”. Abalada com essa conversa Patrícia já havia perdido o ânimo em ensinar algo legal a seus alunos. Pensou então que o melhor era trabalhar, mesmo que desanimada, e deixar o tempo passar, para que no dia seguinte voltasse a sua rotina com a qualidade habitual.
Já estava prestes a terminar seu horário e foi para sua última turma de alfabetização. Tinha um aluno novo, uma espécie de homem forte, daqueles que está prestes a explodir a qualquer momento. Depois do que falou a substituta, ela observou aquele novato e ficou receosa. Ela dava a aula, escrevia no quadro e a todo momento que olhava para trás, era sempre o mesmo olhar doentio, mórbido, assassino. Patrícia repetia consigo mesma a toda hora “Já vai acabar, já vai acabar”, mas parecia nunca acabar, teria o mesmo fim que a professora da história contada pela substituta. Até que a aula acabou e ela já ia guardar suas coisas quando olhou para a sala vazia e continuava lá o presidiário feroz, com seu olhar de predador pronto para o ataque. Ela tremeu, ensaiou uma corrida para longe daquele lugar, mas as pernas não se moviam. Ele se levantou, com uma mão no bolso e outra atrás do corpo. Ela chorou e, em desespero, falou “Por favor, não me mate, eu pago, eu faço tudo que você precisar, mas não me mate, por favor”, ele ignorou e continuou a andar em sua direção. Quando chegou na frente dela – aterrorizada, praticamente naquela expectativa de último suspiro -, estendeu sua mão escondida e lá estava uma flor e um cartão com a inscrição “Obrigado por me fazer aprender a ler e escrever”.