quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Sonhos e Desejos
Meu peito sangrava, quando pequenos rios rubros reluzentes fluiam sobre meu abdome e alcançavam a terra, molhando-a e preenchendo-a de vida.
A terra, escura e sem vida, por muito inanimada submetia-se ao vento, à chuva, ao Sol e à Lua. Mas meu sangue deu-lhe vida. Infiltrou-se por entre seus grãos alcançando cada vez níveis mais baixos, passando por resíduos de pedras, até alcançar um diferente dos demais. Um grão tão escuro e aparentemente sem vida quanto os outros, mas que dentro de si carregava a chama do despertar. Era a semente, filha de uma bela árvore, que descansava sob a terra aguardando o fogo que despertaria em si a vida.
Eu estava caminhando rumo ao colégio em passos rápidos - como sempre - para não me atrasar. Incrível como a rapidez dos meus movimentos fora vencida tão rapidamente pela beleza de uma linda moça, que parou meu tempo. Não era uma beleza comum: era morena, olhos claros, cabelos pretos levemente ondulados e um sorriso tão aparentemente simples - mas tão gracioso. Não era a primeira, mas foi minha última paixão.
Fora ela houvera outras tão belas quanto. Todavia não me interessa o belo que os outros dizem ser - esse muito propagado pela mídia - mas a beleza interior que se expressa na exterior - isso porque não existe a carne sem a alma, tampouco a alma sem a carne: ambas se complementam e interagem entre si. E foi isso que parou meu tempo naquele momento.
Tão relativo é o tempo que da rapidez dos meus movimentos sucedeu a lentidão do meu olhar e esta fora sucedida também pelo retorno ao movimento. Pudera eu estender a lentidão e suplementá-la com meu desejo. A pele macia e quente daquela menina, seu cheiro suave e gostoso envolvendo-me num instante eterno. Sonhos e mais sonhos preencheram minha vida cobrindo-me tão somente de desejos.
Muito gostoso é desejar, mas de outras experiências que a vida me proporcionou sei dizer que muito melhor é poder concretizar um desejo. Os pensamentos, sustentados pela alma, carecem da realização carnal, pois nossa existência baseia-se nisso. Se vivêssemos só de sonhos e desejos, não viveríamos.
Por isso eu estou morrendo, com este punhal que alcançou meu peito pelas minhas próprias mãos e preenche meu corpo e alcança a terra com meu sangue. Depois de tantos sonhos não realizados, desejos não concretizados, meu corpo naturalmente manifestou a inquietação de minha própria alma: ver tanta beleza, sentir tanto carinho e tanto amor, e ao mesmo tempo não ter a coragem de simplesmente dizer um "oi" a uma bela menina, sucedido pelo "você é a mulher mais bonita que já vi" com toda sinceridade que um homem apaixonado pode dizer e complementado pelo beijo amoroso que somente um casal em completa harmonia consegue realizar.
Nada mais natural minha morte quando a vida para mim baseava-se somente em sonhos e desejos. Natural, pois, é que a vida - depois de criada - não se esvai, ela se transforma - mas permanece. Meu sangue, sem meu coração, meu cérebro, sem meu corpo por completo, por si só não vive, mas foi capaz de levar a vida àquela semente. E da semente brotou uma nova árvore, semelhante àquela que a originou.
Uma pequena muda cresceu contra a força da gravidade, encarando a resistência que o próprio ambiente fornece à vida, e de seu tronco saíram galhos, e estes se ramificaram, permitindo que brotassem de si folhas, embelezadas pelas flores da primavera e que abrigavam os doces frutos dessa bela árvore.
Tão doces e agradáveis ao paladar eram esses frutos que deles passou a se alimentar aquela bela moça pela qual havia me apaixonado. E tão forte era o tronco desta árvore e seus galhos tão vigorosos que forneciam a sombra para que minha amada passasse horas e horas amparada por essa estrutura.
Por isso o destino não é tão cruel quanto parece ser! Eu não só dei vida àquela semente, dando vigor a uma nova árvore, mas fiz parte dela, fusionei-me a essa outra existência. E assim, por mais que minha vida humana fora feita só de desejos e sonhos, enquanto árvore eu pude viver as realizações e "concretizações" deles. Horas e horas senti a pele macia e quente, envolvi-me da brisa com o suave e delicioso perfume de minha amada, e abri meus olhos: ela estava junto de mim - o destino não me privou da vida e eu gozei dela.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Renascer
Meu primeiro ato nesse mundo foi um berro. Uma tentativa recém-nascida de dizer ao mundo que a esperança seria renovada.
A infância é um período de muitas alegrias, no qual aprendi desde o andar, até o falar, acariciar, compreender, amar. E conheci também a dor, e a recompensa tida em superá-la.
Mas é inevitável, a sociedade, a vida, o mundo me encaminha para a inatividade, a desesperança, é como se um momento deixasse de existir, e o segundo, o minuto e a hora fossem transformando-se em dias, e os dias em meses, e os anos em décadas e, até onde isso iria?!
Perco a cada dia o valor dos instantes, e quanto mais cresço, menos pareço dar valor à importância de cada momento nessa vida...
E a vida é um milagre, criação da onipotência Divina...
Vou perdendo o amor a D’us, perdendo o amor pela vida!
É a monotonia do cinza a preencher o vazio criado pela inexistência humana na sociedade dos homens. E não é preto, nem branco, é cinza. O suficiente para você não desistir, seguir adiante, e o suficiente para você não ser feliz o bastante, não ter a esperança de avançar – a criação alcançar o Criador.
E a cada nascimento é uma nova esperança. É como se almas e almas pedissem pela salvação. Azul, verde, branco, amarelo, vermelho... Alegria! Amor! Paz! – D’us.
Como foi bom ter nascido, como foi bom ter sido criança! Eu cresci e passei pelo meu primeiro beijo, meu primeiro carinho e meu primeiro amor.
Senti o prazer da pele da amada encostada na minha, o calor, a energia... D’us!
E parecia ser um dia cinza qualquer... Como se fosse acontecer sempre, ou nunca mais.
Não foi um momento, foi nada, parece. Quando lembro dos meus dias de garoto, parecem milênios de vivência, o explorar e conhecer um mundo novo, pessoas novas, pensamentos inéditos. Por que há de se perder essa graça de viver?
Por que a vida não é um infinito de momentos?
Por que teima em ser tão finita e limitada... Por quê?!
Eu perco a cada dia o D’us presente em mim, e só há tão pouco eu percebi essa perda gradativa, que mais e mais eu quero retomá-lo. Eu quero a paz dos céus, a alegria do sol e a sabedoria do infinito a me preencher de novo!
Quero acordar desse sono, renascer e, em meu primeiro ato, gritar ao mundo “Esperança”, “D’us”. E preencher esse vazio acinzentado de um amor, de alegrias e de luz multicolor, do vermelho ao anil. Transformação. Nascer do dia. Renascer da humanidade.
A Mão
O Sol sequer tinha nascido e Patrícia acordou como parecia um dia qualquer, lavou o rosto, tomou seu café-da-manhã, trocou de roupa e tornou a caminhar para seu trabalho. Ela era professora e se empenhava num projeto do governo de alfabetização dos presidiários da zona rural. Desde criança, quando via o preconceito da sociedade com esses indivíduos, se irritava e desejava fazer sempre algo para mudar essa realidade. Afinal, todos erram ao menos uma vez na vida e é direito de qualquer errante uma oportunidade de provar que pode acertar. Mas definitivamente aquele não era um dia qualquer.
Ao chegar na penitenciária, uma professora substituta já estava lá, pois a regular havia engravidado e aderiu à licença. Jurou ter presenciado a pior situação de sua vida quando essa mulher proferiu as seguintes palavras “Como é que são esses vagabundos aqui? Lá na outra penitenciária a coisa era braba, além de estar cheio desses burros que pensam conseguir aprender algo, tinha uns pilantras barra pesada e pior, uns malucos. Um dia estava dando aula quando ouvi um grito, era uma professora que foi morta por um preso pirado, o qual estava escondendo a faca no bolso. A ignorante pediu para que ele mostrasse o que tinha lá e ele esfaqueou a mulher num golpe fatal”. Abalada com essa conversa Patrícia já havia perdido o ânimo em ensinar algo legal a seus alunos. Pensou então que o melhor era trabalhar, mesmo que desanimada, e deixar o tempo passar, para que no dia seguinte voltasse a sua rotina com a qualidade habitual.
Já estava prestes a terminar seu horário e foi para sua última turma de alfabetização. Tinha um aluno novo, uma espécie de homem forte, daqueles que está prestes a explodir a qualquer momento. Depois do que falou a substituta, ela observou aquele novato e ficou receosa. Ela dava a aula, escrevia no quadro e a todo momento que olhava para trás, era sempre o mesmo olhar doentio, mórbido, assassino. Patrícia repetia consigo mesma a toda hora “Já vai acabar, já vai acabar”, mas parecia nunca acabar, teria o mesmo fim que a professora da história contada pela substituta. Até que a aula acabou e ela já ia guardar suas coisas quando olhou para a sala vazia e continuava lá o presidiário feroz, com seu olhar de predador pronto para o ataque. Ela tremeu, ensaiou uma corrida para longe daquele lugar, mas as pernas não se moviam. Ele se levantou, com uma mão no bolso e outra atrás do corpo. Ela chorou e, em desespero, falou “Por favor, não me mate, eu pago, eu faço tudo que você precisar, mas não me mate, por favor”, ele ignorou e continuou a andar em sua direção. Quando chegou na frente dela – aterrorizada, praticamente naquela expectativa de último suspiro -, estendeu sua mão escondida e lá estava uma flor e um cartão com a inscrição “Obrigado por me fazer aprender a ler e escrever”.
domingo, 2 de janeiro de 2011
A Última Esperança
Antes de começar a ler esta carta, deves saber o que ela representa.
Geração após geração, foi passado desde meus ascendentes até mim uma história e, agora que encontrei um meio de levá-la à raiz dessas gerações, é minha esperança que,numa outra realidade nesse futuro que vivo, eu possa comunicar-me contigo e exaltar palavras de conforto, justiça, paz, vida! – e não o que venho te falar agora.
Tudo começou quando um pai contou ao seu filho a verdade. Todos os outros pais ou fingiam não saber dela, ou mentiam, iludiam com histórias que mais pareciam bonitas a reais, ou mesmo esbanjavam na realidade sua crueldade e tirania. A verdade que contou a seu filho, disse ele, seria a liberdade – a liberdade não só do filho, mas de todos aqueles que viviam sob o regime que a sociedade instituiu naquele tempo.
Houve uma época em que D-us por um motivo que desconheço deu ao homem o governo de sua criação na Terra. Teve ele o domínio sobre os minerais, as plantas, os animais e, com o estímulo do seu raciocínio, alcançou o domínio da natureza como (quase) um todo. Por muito isso foi sadio, permitiu sua estabilidade diante da terra que D-us lhe confiara. Até que, um dia, um grupo desses homens – por ambição e poder – extinguiu o (quase) do domínio da natureza como um todo, pensando no que poderia ganhar com a proliferação desse pensamento e essa ideia venceu a humanidade, aprisionando-a ao materialismo, o qual tivera seu principal alicerce no consumismo e no desejo individual da sociedade em ser mais que seu semelhante.
Todo o homem alcançava esse conhecimento do que participava em algum momento de sua vida antes de proporcionar a um novo ser sua estadia na Terra, seu filho. Todavia, por mais desumano que isso possa parecer – e infelizmente era desumanidade o que imperava naquele tempo -, escondia isso de seu filho, fazendo-o viver anos aprisionando-se cada vez mais naquilo que ele próprio havia se feito prisioneiro.
Existe algo na consciência humana que faz o homem, em um certo momento de sua vida, acomodar-se com o que já existe e tentar tirar o máximo proveito disso, mesmo sabendo que podia ser mais, viver mais. E o sistema que fora implantado na sociedade garantia que, até alcançar esse momento, o homem seria privado da verdade.
Aquele pai, iluminado com o amor dos olhos do filho e com a pureza de sua mulher ao lhe estender a mão em seu último suspiro, ao dar à luz, sentiu algo do que um dia haviam chamado humanidade – e era dessa humanidade que um dia falou um profeta ter sido o homem feito à semelhança de seu Pai. Esse sentimento brotou-lhe na consciência o dever de transmitir a verdade ao seu filho, de não deixá-lo aprisionar-se, de libertá-lo de seu destino e, consigo, todas as vítimas dessa conspiração social.
“O homem não domina a natureza, nem deve dominá-la. Ele é guardião dessa criação divina e sua força deve agir no sentido de mantê-la, e não consumi-la para si.” Foi o que o pai cultivara na consciência do pequeno filho como uma semente, para que brotasse na maioridade uma esperança de transformação.
Talvez houvesse outros filhos na mesma situação em contato com esse, ou as circunstâncias fossem mais favoráveis, ou mesmo não houvessem tantos pais covardes, crueis, manipuladores – e manipulados -, a história que me foi passada pelas gerações a mim antecessoras seria diferente desta que estou te contando.
O pai bem fizera sua parte, inspirado por um sentimento maior e divino, mas o filho não pudera ser privado das armadilhas desse sistema que muito governou a sociedade. Ao atingir idade suficiente e não ter mais o pai ao seu lado, o rapaz já sabia da verdade, acreditava nela e queria fazer algo para que outros também acreditassem que ela seria a liberdade de todos e trabalhassem por ela, assim como ele estava disposto. Reuniu em sua casa seus melhores amigos, deu-lhes comida, bebida e queria alimentar-lhes também com a verdade a que tivera acesso. Em troca, foi taxado de “maluco”, “ignorante”, “burro”, “atraso da sociedade” e, por um instinto social, o jovem partiu para uma cruzada pessoal junto de uma bela moça – a qual tomou por sua companheira e mulher - para o interior das terras que D-us confiou aos homens, instalando-se no meio da floresta em uma cadeia de montes ao Oriente. E lá fundou sua casa, estabeleceu sua família e contara a cada um de seus filhos – para que contassem também aos pequenos destes – a história sua e de seu pai. Dessa forma, instituiu-se naquele local, com um tempo, um vilarejo dos descendentes dessa família. À terra era dado o vegetal que transforma seus minerais em coisa viva; ao animal, o direito de alimentar-se em abundância desse vegetal e viver livre sobre os pastos que rodeavam os montes; e ao homem, de preservar esse patrimônio divino, dando-lhes o direito de viver enquanto seu tempo durasse e alimentar-se deles somente nesse momento em que a vida estivesse em seu último segundo. Fez, portanto, aquele filho a vontade de D-us e permitiu que essa história e esses valores chegassem até mim, geração após geração.
Mas antes de chegar a mim nessa história, algo mais aconteceu. Não foi a ira de D-us, nem da própria natureza, a qual causou o que vou te contar, mas a consequência da própria escolha dos homens. Por mais que muitos soubessem da limitação da natureza em provir sustento a esse selvagem desenvolvimento e domínio brutal tão ambicionados pelo homem e até alguns apresentassem alternativas menos devastadoras – o que chamaram de sustentabilidade -, o pior se tornava inevitável, o mundo estava prestes a dar seu último suspiro. Entretanto, como te falei, não foi a mão de D-us, nem o golpe de vingança da natureza que causou isto. O extermínio da sociedade ocorreu pelas próprias mãos sujas de cinzas das queimadas, sangue dos animais, toxicidade implantada na natureza, pelas mãos nas quais agora eram conferidas uma cor mais rubra, mais familiar, do sangue humano - mãos dos homens. Toda a sociedade fora vítima e autora de seu próprio fim. A desumanidade que nascera da desigualdade entre as criações divinas, a qual estendera-se à desigualdade entre os próprios homens, culminou com o sentimento generalizado de ambição, poder, ódio e destruição. Intolerância, tirania, preconceito tornaram-se tão comuns que todos os Estados preenchiam-se desses preceitos e, por fim, não foi só a bomba nuclear, a arma de destruição em massa, a podridão social e essa total desumanidade que destruíram tudo o que fora construído e confiado ao homem por D-us, mas tudo isso em conjunto.
E, agora sim, chego à minha existência. Por algum motivo que eu também desconheço, de tudo que pereceu nesse mundo, nosso vilarejo – ainda sustentado nos valores e história de meus ancestrais -, não fora destruído. É como se fizéssemos parte de uma outra realidade, não sei. A única coisa que sei é que tenho em minhas mãos agora essa carta, dada a mim por D-us, para que escrevesse àquele pai – tu - , ancestral de toda minha história. E para que seja entregue por ti, meu ascendente, ao teu filho, de maneira a mostrar a ele que, por mais que possa alcançar em seu futuro a liberdade que tu sonhaste para ele e vida em abundância aos seus descendentes em preceitos elevados, não há coisa pior que ter essa comunidade ideal, nosso vilarejo, em meio a tanta destruição. Essa visão de que temos, aqui de nosso monte – que agora permite ver todo o mundo -, é a prova mais real e torturadora de que, em busca daquilo que D-us nos havia concebido, esquecêramos de um dos maiores valores por ele nos passado, a fraternidade. Teu filho terá a oportunidade, por ti concedida, de ter acesso à verdade em seu tempo mais propício e será levado a trabalhar por ela num mundo perdido de valores, imerso numa ilusão terrível. E agora estará em prova, sabendo disso tudo, seu valor fraterno em não desistir de levar a verdade também aos seus semelhantes – de insistir com seus amigos para que acreditem nele -, abandonando a ideia de construir um pequeno vilarejo consoante com a Palavra de D-us e adotando o ideal de elevar todo esse mundo àquilo que o homem se comprometeu perante seu Pai. Dê a ele esta carta, a qual chegou a ti por intermédio divino, para que ele realmente prossiga com seu trabalho pela verdade que, em momento oportuno, darás a ele o direito de conhecer. Saiba que não há, realmente, pior visão do que viver num local ideal em meio à devastação, à destruição, à falta de vida – e não há pior sentimento do que a solidão e o arrependimento, resultado do abandono que o próprio indivíduo causou. Atentem, tu e teu filho, a essas minhas palavras e transmitam aos seus semelhantes, para que toda a Terra tenha o direito de existir sob os preceitos d’Aquele que a todos nós deu a vida e confiou sua própria criação. A mudança de suas atitudes é a minha esperança de, numa outra realidade, poder ver vida sobre todas essas terras e, se assim me for permitido por D-us, enviar-te uma carta totalmente diferente desta, esbanjando a vida, a prosperidade plena que nasceu dos atos teu e de teu filho.
De seu descendente.
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