quarta-feira, 6 de junho de 2012

Destinado a sobreviver.

Não sei por que escolhi esse destino. As pessoas vivem guiadas pelo seu ego em busca do prazer, e eu escolhi viver orientado pelo ego dos outros, sacrificando por eles meus próprios desejos. Essa é a história que eu jamais contarei aos meus filhos e netos, essa é a minha história, que agora eu confesso neste registro.
Enquanto deitado estava, meu corpo era inundado por nuvens pálidas e sombrias que passavam a envolvê-lo cada vez mais. Eu, parado, inerte - morto? Ainda respirando... o coração ainda batendo... as artérias pulsando e os olhos piscando. Sobrevivendo eu estava - sim, sobrevivendo. E minhas mãos e pés estavam atados por essas sombras, mas eu nada fazia para tentar me libertar. De alguma forma eu aceitava a submissão. Por quê? Ainda não sei. Não sei por que escolhi esse destino.
O rapaz, de braços tão fracos quanto os meus, mas de um ego tamanho que eu jamais em mim poderia suportar. Eu, deitado, atado, calado, submisso, explorado. Ele, desejando, saciando-se, delitando-se, gozando do momento. Eu, sobrevivendo - e ele: vivendo?
Despiu-me de roupa, calçados, meias, calça, camiseta, cueca, tudo. E eu, inerte. Consumiu meu corpo, rompeu minha pureza, sujou minha alma. E eu, submisso. O que deveria dizer? O que deveria fazer? Por dentro eu gritava: deixe-me em paz! Implorava: eu quero viver! Mas meu destino era sobreviver e eu ainda não sei o porquê de ter escolhido assim. Talvez porque algum dia eu ainda venha a viver.