Disse um sábio a seu discípulo:
“Depois do vazio total ser preenchido por esparsas condensações energéticas, D-us percebeu que a matéria ainda era insuficiente sem a vida. Então pensou em trazê-la ao espaço, e assim o fez. A princípio, depositou-a num mundo em transformação, para que a simplicidade inicial da estrutura do ser fosse aos poucos conquistando a complexidade da vida. Então, da estrutura inorgânica surgiram as moléculas complexas e delas nasceu a vida primitiva, seres microscópicos. Estes, com o passar do tempo e com a evolução gradativa, tornaram-se maiores e diversos, a vida se estabeleceu no planeta. A variedade das existências foi tremenda. Entretando, D-us não conseguiu encontrar, mesmo após longa espera, a totalidade da vida naquele planeta. Faltava algo. Faltava sua própria essência. Então elegeu um grupo de seres, dotados de singularidades capazes de diferenciá-los dos demais, para que alcançassem um nível de vivência além do que os outros já conseguiram – deu-lhes o raciocínio e estimulou o aprimoramento da socialização. Enfim, uma espécie evoluíra rapidamente ao encontro do que desejava o Criador. Mas não o suficiente.
Vendo que ainda a matéria não houvera encontrado a complexidade total da vida, mesmo após um longo período, D-us resolveu intervir novamente, e prometeu a si mesmo ser essa a última vez. Ao grupo de seres o qual tomou como escolhido, ampliou a capacidade intelectual a nível ímpar. No entanto, sabia D-us que o universo exigia o equilíbrio para que ele mesmo se mantivesse. Então, assim como no princípio da vida nasceu o heterótrofo junto do autótrofo, o animal junto da planta, o carniceiro junto do herbívoro, naquele grupo de seres evoluídos, haveriam dois – três, na verdade – tipos de seres. Os manipuladores, os manipulados, e os detentores da verdade. O equilíbrio da vida exigiu isso. Os manipuladores buscaram a felicidade e suas conquistas nos manipulados, e estes tomaram como sua alegria e êxito servir àqueles. Os detentores da verdade, no entanto, sabiam que a realização residia neles próprios e foram esses os seres de luz que alegraram os olhos de seu Criador. E tão iluminados eram que não bastassem alcançar o próprio êxito, sempre se esforçavam em levar a verdade aos outros. Muitas vezes alcançavam o sucesso, mas o equilíbrio era inevitável para que não houvesse caos, então toda vez que traziam mais um detentor da verdade, nascia no mundo um manipulador ou manipulado. E D-us viu tão alegre se estabelecerem e multiplicarem criaturas semelhantes a Si, que manteve a vida no universo.”
E essa é a história de como Ele deu vida ao inanimado e de por que existe o senso de “acomodação” na humanidade, somente em alguns momentos atentado pelos detentores da verdade, mas que, logo em seguida às suas revoluções, tudo voltava a se acomodar, pois o equilíbrio é necessário para evitar o caos.