Eu já não aguentava mais. São vinte anos trabalhando de bancário e o máximo de respeito o qual consigo obter das pessoas é um sorriso amarelo, sinal irônico do quanto aquela pessoa se interessa por mim, além do seu próprio ego. É bem verdade que existem as exceções, um jovem querido que te dá um presente de surpresa, ou um velho rabugento o qual, não bastasse nem lançar sequer aquele sorriso morno, ainda me chinga pela “minha” incompetência - geralmente a máquina que está estragada, ou um imprevisto que foge ao meu controle, pois sempre fui responsável e leal ao meu trabalho.
Mas eu realmente cansei. Vinte anos, oras! Quem aguenta tanto desrespeito por tanto tempo? Talvez um santo ou outro que apareçam por aí, mas exceções, exceções. De exceções não se faz nada nesse vasto mundo.
Tomei as rédeas do meu destino e resolvi dar o troco aos clientes “sorriso-amarelo”. Durante alguns dias, semanas talvez, anotei todos os nomes. Tudinho. Não tolerei sequer um sorriso duvidoso. Tendo os nomes, busquei os endereços e me demiti.
O primeiro sorriso falso veio de uma tal Roberta. Moça de meia-idade, loira, alta, bonita a rapariga. Mas um sorriso amarelo que não engana nem o mais trouxa. Fui à casa dela numa noite para acompanhar desde a madrugada sua rotina e assim o fiz por alguns dias. De posse da confiança em realmente conhecer os hábitos da moça, no horário mais vulnerável – período em que chegava em casa do trabalho e esperava o marido voltar, arrumando o jardim – dei o bote. Sem que ela percebesse, meti um pano em sua cabeça, calei sua boca e cortei sua garganta. Isso porque sempre tive dúvidas se o que mais me irritava era aquele sorriso ou a falta de autocrítica em não perceber quando se fala muito e pouco ao mesmo tempo (tu me entendes que isso significa que ela era uma baita tagarela a qual no final das contas não dizia nada com nada, né?).
Foi o meu primeiro ato de rebeldia. Minha vontade era de me embebedar com todo aquele sangue, mas no final das contas preferi não ficar nem um pouco sujo com algo que viesse daquela falsa-respeitosa moça. Claro, corri dali, deixei a mulher terminar de morrer sozinha e joguei os trapos sujos no lixo, ali perto mesmo. Mas cuidei com as digitais, com meus fluidos e pelos, afinal vinte anos sem nem uma tevezinha, com aqueles seriados policiais, nem para o mais insano, concorda?
Nossa, ao chegar em casa, fiquei tão excitado que minha vontade era de comer pedra. Sei que pode parecer meio estranho, mas pequenas dores me trazem prazer. Não, não me acho sadomasoquista, apenas acredito que as pessoas gostam de sofrer um pouco – um pouco -, cada um a sua maneira. Umas apanham dos maridos, outras viram prostitutas, alguns curtem uma luta, até tem aqueles que se sentem bem ouvindo pagode – já eu realmente gosto de comer pedra, mas reservo essa façanha somente para os melhores momentos.
Cansei. Foram tantos dias planejando, uma euforia total na realização e fora a excitação a qual alcancei depois do homicídio, que definitivamente cansei. Dormi.
Ao acordar, me senti estranho. Sei lá, sabe aquelas sensações que te ocorrem de vez em quando, de que algo está errado? Bom, ignorei. Fui à cozinha, comi meu lanche, tomei meu banho e lembrei com prazer da noite anterior. Comi pedra, não me aguentei. Após esse entretenimento matutino, fui ver o dia. Nossa, que Sol maravilhoso! Há quanto não percebia toda essa beleza natural! Ouvi o passarinho cantando, o cachorro latindo, os gatos se matando. Isso tudo para mim sempre foi motivo de perturbação, pois acordava sempre de madrugada com essa barulheira e quando ia para o trabalho, o Astro-Rei queimava meus olhos claros, já exaustos das luzes artificiais que preenchiam meu dia no banco. Mas tinha algo de estranho acontecendo, eu sabia.
Quando fui sair de casa para observar minha próxima vítima, não passei da porta. Logo que a abri, levei uma paulada na cabeça, nem tinha visto quem fora o autor da brutalidade. Quando me dei por acordado, estava num lugar escuro. Nossa, eu estava preso por cordas em meus membros. E que cheiro nojento!
- Por que tu fizeste isso? - Perguntou uma voz.
- Isso o que? Quem é, porra?
- Não me reconhece? – e acendeu a luz. Era minha vítima, dona do sorriso amarelo, com aspecto pálido, garganta cortada, corpo sujo de sangue seco e fedendo a podridão e ferro.
- Ainda estás viva? Mas se queres saber, foi pela merda desse teu sorriso amarelo e de tantos outros que tive que aturar por vinte anos lá no banco. Sempre tratei as pessoas com respeito e foram exceções aquelas que me retribuiram a altura. Tu, tão bonita, tão letrada – tão tagarela, é bem verdade – e tão rica não tinha moral nenhuma. Escória.
- Foi por isso, então?
A vaca sacou uma faca nas mãos e num pulo cortou minha boca de lado a lado. Só deu para ouvir o “Agora quem tem a merda do sorriso amarelo?”, antes de acordar com o coração a mil. Nossa, que pesadelo. Olhei para o relógio: onze horas! Puta merda, como eu vou vigiar minha próxima vítima assim tão tarde? Enfim, me arrumei ligeiro, tomei um suco e sai correndo para ver se ainda não houvera de fato me atrasado, afinal era sábado e, quem sabe, o Humberto não trabalhasse nesse dia. Mas que sina! Não saí da porta. Tentei resistir, mas não deu. Eram os policiais, os malditos me pegaram assim cedo! Nem passara uma noite, oras, que rápidos! – não, não moro no Brasil.
Depois descobri que havia uma etiqueta com minha identificação – maldito hábito o qual herdei de minha mãe - no pano que deixei junto à morta e que esqueci meu crachá do banco – lembrar que havia pedido demissão me dava forças – junto às minhas roupas ensanguentadas que joguei fora, perto do local do crime. Atentei ao tão inesperado, que ignorei o óbvio, inclusive o de deixar a lista das vítimas em cima da minha escrivaninha, em casa – o que não passou batido pelos policiais. Não bastasse o peso da burrada, tive que sentir a dor da injeção letal – definitivamente não moro no Brasil -, essa não tão prazerosa quanto a de comer pedras.