Saudades dos tempos em que atendia no hospital os pacientes preocupados com suas doenças, suas aflições, sua vida. Já era rotineira a pergunta “Então, me digas, que mal lhe aflige?” e mais comum ainda eram as respostas dos adoentados, bem como a minha solução final “Tome esse remédio tantas vezes ao dia e você melhorará.” – funcionava para a maioria, tal que poucos eram os que retornavam ao consultório questionando a ineficácia do meu método. Se o corpo está debilitado, o mais óbvio seria buscar a cura dele pelo que o constitui, algo físico, objetivo e palpável – o remédio.
Saudades, definitivamente saudades, sinto da brancura do hospital, do meu jaleco, dos dentistas que percorriam aqueles corredores brancos, das enfermeiras e de um ou outro espírita que insistia em vir alvamente vestido para visitar seus parentes adoentados. Saudades até mesmo das nuvens que cobriam o céu, de brancura sem tamanho e que eu pouco notava em meu dia-a-dia. Hoje, a única coisa que vejo branco é simplesmente tudo – ceguei, era a “treva branca”.
Em um primeiro momento pensei que minha vida havia acabado, pois estava cego. Depois, pensando melhor, entendi que nada fazia mais sentido porque tudo que eu sabia – a medicina, minha vida – não poderia mais aplicar, haja vista que o elemento primordial do diagnóstico é a observação, e a cegueira meramente foi um muro que se impôs perante mim e meus pacientes.
Tão próximo apareceu a minha frente um rapaz adoentado, com uma ferida em processo hemorrágico avançado na perna, nem imaginava por onde começar, pois a única coisa que sabia era o que o rapaz gritava Minha perna, minha perna! Está sangrando muito, seu doutor, me ajude, Mas o que aconteceu, me diga, Aquela maluca enfiou seu salto em minha perna e agora está a sangrar muito. O que eu poderia fazer, me perguntei. De fato, a sorte era que minha mulher, ainda não acometida pela cegueira, mas como todos encurralada nesse manicômio – local da quarentena em que nos encontrávamos -, correu para buscar água a lavar o ferimento e logo pegou a camisa do lesionado para estancar o sangramento. Eu não podia fazer nada, pois só para achar o ferimento teria de tatear todo o corpo do rapaz; para alcançar o reservatório da água teria de ir apalpando as paredes para achar uma torneira e seria bem capaz de eu fazer a atadura na perna que não a lesionada, quando voltasse. Após décadas na profissão de médico, eu me via um inútil.
Mais alguns dias de convivência foram necessários para o destino me mostrar que estava errado – e talvez fosse sorte mesmo passar por esses momentos de cegueira, para que morresse realmente sabendo e vivendo a medicina. Em outra ocasião, dotado de visão, àquele rapaz adoentado, limparia o ferimento, faria a atadura, daria algumas recomendações sobre como cuidar da lesão e indicaria um remédio, como de praxe. Mas naquelas condições, nada disso era possível, pois nem medicamentos havia naquele local. Fato é que minha mulher foi quem cuidou do corpo do rapaz e eu, o médico, demorei bastante para perceber que minha maior função, naquele momento, era seguir o que dizia Hipócrates “Prescreverei o regime dos enfermos do modo que lhes seja mais proveitoso, conforme minhas possibilidades e o meu conhecimento, evitando todo mal e toda a injustiça”. Perante minha impossibilidade em prover o atendimento médico esperado pelo lesionado e meus conhecimentos se restringirem a um método em que a observação é essencial, percebi que seria mal e injusto não fazer nada e resolvi prescrever ao enfermo, o regime do consolo. De fato, o que melhor me restava sem a visão era o benefício da palavra e foi isso que dei ao adoentado. Pelos seus últimos dias de vida – os quais não foram muitos, pois sua lesão infeccionou e comprometeu seu estado geral -, conversei com o rapaz, perguntei sobre suas conquistas, ouvi seus lamentos, tomei nota dos seus sonhos e falei de coisas boas. Não havia melhor medicamento que eu pudesse dar a ele naquele momento senão a palavra. Morreu, mas morreu tranquilo, sereno – com dignidade.
Percebi, com isso tudo, que a brancura a qual cobria minha visão não era a única que ainda permeava a existência – meus pensamentos ainda mantinham um pouco do que pude chamar de alvo, sentimentos bons os quais eu obtive conhecendo outros aspectos da medicina que lembrava nunca ter aprendido, nem na faculdade, nem na vivência médica. Diante da necessidade e levando em conta minhas potencialidades na ocasião, me descobri naquela situação não mais como o médico do corpo, mas um médico de almas, tão bom quanto aqueloutro. E vi que, às vezes, o melhor remédio para o ser humano – corpo e alma – não é aquele medicamento químico – físico, objetivo e palpável -, mas a palavra a qual conforta e evidencia na medicina não o aspecto da cura, muitas vezes impossível de se obter, mas a necessidade de oportunizar ao doente o bem-estar ao máximo. Saudades dos tempos em que via algo além do branco, pois se naquela época fosse eu dotado desse conhecimento o qual obtive com a cegueira, teria vivido muito mais a medicina do que fui capaz de explorar somente seguindo meus mestres e a ilusão que prega o materialismo por eles difundido. O ser humano não é só corpo, é alma, sentimentos, desejos, vivências, história. E o médico não deve, portanto, tratar dele só em seu aspecto corporal, mas buscar envolvê-lo de conforto em toda sua plenitude.
Nota
Meu objetivo nesse conto não foi simplesmente reescrever a história de Saramago, acrescentando alguns detalhes; mas tomar seu ensaio como base para uma narrativa – até mesmo não correspondendo ao que realmente ocorreu no ensaio -, com reflexões e perguntas e respostas acerca da medicina.
Referência
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.
