segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Médico de Almas



Saudades dos tempos em que atendia no hospital os pacientes preocupados com suas doenças, suas aflições, sua vida. Já era rotineira a pergunta “Então, me digas, que mal lhe aflige?” e mais comum ainda eram as respostas dos adoentados, bem como a minha solução final “Tome esse remédio tantas vezes ao dia e você melhorará.” – funcionava para a maioria, tal que poucos eram os que retornavam ao consultório questionando a ineficácia do meu método. Se o corpo está debilitado, o mais óbvio seria buscar a cura dele pelo que o constitui, algo físico, objetivo e palpável – o remédio.
Saudades, definitivamente saudades, sinto da brancura do hospital, do meu jaleco, dos dentistas que percorriam aqueles corredores brancos, das enfermeiras e de um ou outro espírita que insistia em vir alvamente vestido para visitar seus parentes adoentados. Saudades até mesmo das nuvens que cobriam o céu, de brancura sem tamanho e que eu pouco notava em meu dia-a-dia. Hoje, a única coisa que vejo branco é simplesmente tudo – ceguei, era a “treva branca”.
Em um primeiro momento pensei que minha vida havia acabado, pois estava cego. Depois, pensando melhor, entendi que nada fazia mais sentido porque tudo que eu sabia – a medicina, minha vida – não poderia mais aplicar, haja vista que o elemento primordial do diagnóstico é a observação, e a cegueira meramente foi um muro que se impôs perante mim e meus pacientes.
Tão próximo apareceu a minha frente um rapaz adoentado, com uma ferida em processo hemorrágico avançado na perna, nem imaginava por onde começar, pois a única coisa que sabia era o que o rapaz gritava Minha perna, minha perna! Está sangrando muito, seu doutor, me ajude, Mas o que aconteceu, me diga, Aquela maluca enfiou seu salto em minha perna e agora está a sangrar muito. O que eu poderia fazer, me perguntei. De fato, a sorte era que minha mulher, ainda não acometida pela cegueira, mas como todos encurralada nesse manicômio – local da quarentena em que nos encontrávamos -, correu para buscar água a lavar o ferimento e logo pegou a camisa do lesionado para estancar o sangramento. Eu não podia fazer nada, pois só para achar o ferimento teria de tatear todo o corpo do rapaz; para alcançar o reservatório da água teria de ir apalpando as paredes para achar uma torneira e seria bem capaz de eu fazer a atadura na perna que não a lesionada, quando voltasse. Após décadas na profissão de médico, eu me via um inútil.
Mais alguns dias de convivência foram necessários para o destino me mostrar que estava errado – e talvez fosse sorte mesmo passar por esses momentos de cegueira, para que morresse realmente sabendo e vivendo a medicina. Em outra ocasião, dotado de visão, àquele rapaz adoentado, limparia o ferimento, faria a atadura, daria algumas recomendações sobre como cuidar da lesão e indicaria um remédio, como de praxe. Mas naquelas condições, nada disso era possível, pois nem medicamentos havia naquele local. Fato é que minha mulher foi quem cuidou do corpo do rapaz e eu, o médico, demorei bastante para perceber que minha maior função, naquele momento, era seguir o que dizia Hipócrates “Prescreverei o regime dos enfermos do modo que lhes seja mais proveitoso, conforme minhas possibilidades e o meu conhecimento, evitando todo mal e toda a injustiça”. Perante minha impossibilidade em prover o atendimento médico esperado pelo lesionado e meus conhecimentos se restringirem a um método em que a observação é essencial, percebi que seria mal e injusto não fazer nada e resolvi prescrever ao enfermo, o regime do consolo. De fato, o que melhor me restava sem a visão era o benefício da palavra e foi isso que dei ao adoentado. Pelos seus últimos dias de vida – os quais não foram muitos, pois sua lesão infeccionou e comprometeu seu estado geral -, conversei com o rapaz, perguntei sobre suas conquistas, ouvi seus lamentos, tomei nota dos seus sonhos e falei de coisas boas. Não havia melhor medicamento que eu pudesse dar a ele naquele momento senão a palavra. Morreu, mas morreu tranquilo, sereno – com dignidade.
Percebi, com isso tudo, que a brancura a qual cobria minha visão não era a única que ainda permeava a existência – meus pensamentos ainda mantinham um pouco do que pude chamar de alvo, sentimentos bons os quais eu obtive conhecendo outros aspectos da medicina que lembrava nunca ter aprendido, nem na faculdade, nem na vivência médica. Diante da necessidade e levando em conta minhas potencialidades na ocasião, me descobri naquela situação não mais como o médico do corpo, mas um médico de almas, tão bom quanto aqueloutro. E vi que, às vezes, o melhor remédio para o ser humano – corpo e alma – não é aquele medicamento químico – físico, objetivo e palpável -, mas a palavra a qual conforta e evidencia na medicina não o aspecto da cura, muitas vezes impossível de se obter, mas a necessidade de oportunizar ao doente o bem-estar ao máximo. Saudades dos tempos em que via algo além do branco, pois se naquela época fosse eu dotado desse conhecimento o qual obtive com a cegueira, teria vivido muito mais a medicina do que fui capaz de explorar somente seguindo meus mestres e a ilusão que prega o materialismo por eles difundido. O ser humano não é só corpo, é alma, sentimentos, desejos, vivências, história. E o médico não deve, portanto, tratar dele só em seu aspecto corporal, mas buscar envolvê-lo de conforto em toda sua plenitude.

Nota
Meu objetivo nesse conto não foi simplesmente reescrever a história de Saramago, acrescentando alguns detalhes; mas tomar seu ensaio como base para uma narrativa – até mesmo não correspondendo ao que realmente ocorreu no ensaio -, com reflexões e perguntas e respostas acerca da medicina.

Referência
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.

domingo, 26 de dezembro de 2010

O Bancário



Eu já não aguentava mais. São vinte anos trabalhando de bancário e o máximo de respeito o qual consigo obter das pessoas é um sorriso amarelo, sinal irônico do quanto aquela pessoa se interessa por mim, além do seu próprio ego. É bem verdade que existem as exceções, um jovem querido que te dá um presente de surpresa, ou um velho rabugento o qual, não bastasse nem lançar sequer aquele sorriso morno, ainda me chinga pela “minha” incompetência - geralmente a máquina que está estragada, ou um imprevisto que foge ao meu controle, pois sempre fui responsável e leal ao meu trabalho.
Mas eu realmente cansei. Vinte anos, oras! Quem aguenta tanto desrespeito por tanto tempo? Talvez um santo ou outro que apareçam por aí, mas exceções, exceções. De exceções não se faz nada nesse vasto mundo.
Tomei as rédeas do meu destino e resolvi dar o troco aos clientes “sorriso-amarelo”. Durante alguns dias, semanas talvez, anotei todos os nomes. Tudinho. Não tolerei sequer um sorriso duvidoso. Tendo os nomes, busquei os endereços e me demiti.
O primeiro sorriso falso veio de uma tal Roberta. Moça de meia-idade, loira, alta, bonita a rapariga. Mas um sorriso amarelo que não engana nem o mais trouxa. Fui à casa dela numa noite para acompanhar desde a madrugada sua rotina e assim o fiz por alguns dias. De posse da confiança em realmente conhecer os hábitos da moça, no horário mais vulnerável – período em que chegava em casa do trabalho e esperava o marido voltar, arrumando o jardim – dei o bote. Sem que ela percebesse, meti um pano em sua cabeça, calei sua boca e cortei sua garganta. Isso porque sempre tive dúvidas se o que mais me irritava era aquele sorriso ou a falta de autocrítica em não perceber quando se fala muito e pouco ao mesmo tempo (tu me entendes que isso significa que ela era uma baita tagarela a qual no final das contas não dizia nada com nada, né?).
Foi o meu primeiro ato de rebeldia. Minha vontade era de me embebedar com todo aquele sangue, mas no final das contas preferi não ficar nem um pouco sujo com algo que viesse daquela falsa-respeitosa moça. Claro, corri dali, deixei a mulher terminar de morrer sozinha e joguei os trapos sujos no lixo, ali perto mesmo. Mas cuidei com as digitais, com meus fluidos e pelos, afinal vinte anos sem nem uma tevezinha, com aqueles seriados policiais, nem para o mais insano, concorda?
Nossa, ao chegar em casa, fiquei tão excitado que minha vontade era de comer pedra. Sei que pode parecer meio estranho, mas pequenas dores me trazem prazer. Não, não me acho sadomasoquista, apenas acredito que as pessoas gostam de sofrer um pouco – um pouco -, cada um a sua maneira. Umas apanham dos maridos, outras viram prostitutas, alguns curtem uma luta, até tem aqueles que se sentem bem ouvindo pagode – já eu realmente gosto de comer pedra, mas reservo essa façanha somente para os melhores momentos.
Cansei. Foram tantos dias planejando, uma euforia total na realização e fora a excitação a qual alcancei depois do homicídio, que definitivamente cansei. Dormi.
Ao acordar, me senti estranho. Sei lá, sabe aquelas sensações que te ocorrem de vez em quando, de que algo está errado? Bom, ignorei. Fui à cozinha, comi meu lanche, tomei meu banho e lembrei com prazer da noite anterior. Comi pedra, não me aguentei. Após esse entretenimento matutino, fui ver o dia. Nossa, que Sol maravilhoso! Há quanto não percebia toda essa beleza natural! Ouvi o passarinho cantando, o cachorro latindo, os gatos se matando. Isso tudo para mim sempre foi motivo de perturbação, pois acordava sempre de madrugada com essa barulheira e quando ia para o trabalho, o Astro-Rei queimava meus olhos claros, já exaustos das luzes artificiais que preenchiam meu dia no banco. Mas tinha algo de estranho acontecendo, eu sabia.
Quando fui sair de casa para observar minha próxima vítima, não passei da porta. Logo que a abri, levei uma paulada na cabeça, nem tinha visto quem fora o autor da brutalidade. Quando me dei por acordado, estava num lugar escuro. Nossa, eu estava preso por cordas em meus membros. E que cheiro nojento!
- Por que tu fizeste isso? - Perguntou uma voz.
- Isso o que? Quem é, porra?
- Não me reconhece? – e acendeu a luz. Era minha vítima, dona do sorriso amarelo, com aspecto pálido, garganta cortada, corpo sujo de sangue seco e fedendo a podridão e ferro.
- Ainda estás viva? Mas se queres saber, foi pela merda desse teu sorriso amarelo e de tantos outros que tive que aturar por vinte anos lá no banco. Sempre tratei as pessoas com respeito e foram exceções aquelas que me retribuiram a altura. Tu, tão bonita, tão letrada – tão tagarela, é bem verdade – e tão rica não tinha moral nenhuma. Escória.
- Foi por isso, então?
A vaca sacou uma faca nas mãos e num pulo cortou minha boca de lado a lado. Só deu para ouvir o “Agora quem tem a merda do sorriso amarelo?”, antes de acordar com o coração a mil. Nossa, que pesadelo. Olhei para o relógio: onze horas! Puta merda, como eu vou vigiar minha próxima vítima assim tão tarde? Enfim, me arrumei ligeiro, tomei um suco e sai correndo para ver se ainda não houvera de fato me atrasado, afinal era sábado e, quem sabe, o Humberto não trabalhasse nesse dia. Mas que sina! Não saí da porta. Tentei resistir, mas não deu. Eram os policiais, os malditos me pegaram assim cedo! Nem passara uma noite, oras, que rápidos! – não, não moro no Brasil.
Depois descobri que havia uma etiqueta com minha identificação – maldito hábito o qual herdei de minha mãe - no pano que deixei junto à morta e que esqueci meu crachá do banco – lembrar que havia pedido demissão me dava forças – junto às minhas roupas ensanguentadas que joguei fora, perto do local do crime. Atentei ao tão inesperado, que ignorei o óbvio, inclusive o de deixar a lista das vítimas em cima da minha escrivaninha, em casa – o que não passou batido pelos policiais. Não bastasse o peso da burrada, tive que sentir a dor da injeção letal – definitivamente não moro no Brasil -, essa não tão prazerosa quanto a de comer pedras.

(Inspirado na obra A Vitrina de Luzbel, de Aulo Sanford de Vasconcellos.)

O Preço do Equilíbrio



Disse um sábio a seu discípulo:
“Depois do vazio total ser preenchido por esparsas condensações energéticas, D-us percebeu que a matéria ainda era insuficiente sem a vida. Então pensou em trazê-la ao espaço, e assim o fez. A princípio, depositou-a num mundo em transformação, para que a simplicidade inicial da estrutura do ser fosse aos poucos conquistando a complexidade da vida. Então, da estrutura inorgânica surgiram as moléculas complexas e delas nasceu a vida primitiva, seres microscópicos. Estes, com o passar do tempo e com a evolução gradativa, tornaram-se maiores e diversos, a vida se estabeleceu no planeta. A variedade das existências foi tremenda. Entretando, D-us não conseguiu encontrar, mesmo após longa espera, a totalidade da vida naquele planeta. Faltava algo. Faltava sua própria essência. Então elegeu um grupo de seres, dotados de singularidades capazes de diferenciá-los dos demais, para que alcançassem um nível de vivência além do que os outros já conseguiram  – deu-lhes o raciocínio e estimulou o aprimoramento da socialização. Enfim, uma espécie evoluíra rapidamente ao encontro do que desejava o Criador. Mas não o suficiente.
Vendo que ainda a matéria não houvera encontrado a complexidade total da vida, mesmo após um longo período, D-us resolveu intervir novamente, e prometeu a si mesmo ser essa a última vez. Ao grupo de seres o qual tomou como escolhido, ampliou a capacidade intelectual a nível ímpar. No entanto, sabia D-us que o universo exigia o equilíbrio para que ele mesmo se mantivesse. Então, assim como no princípio da vida nasceu o heterótrofo junto do autótrofo, o animal junto da planta, o carniceiro junto do herbívoro, naquele grupo de seres evoluídos, haveriam dois – três, na verdade – tipos de seres. Os manipuladores, os manipulados, e os detentores da verdade. O equilíbrio da vida exigiu isso. Os manipuladores buscaram a felicidade e suas conquistas nos manipulados, e estes tomaram como sua alegria e êxito servir àqueles. Os detentores da verdade, no entanto, sabiam que a realização residia neles próprios e foram esses os seres de luz que alegraram os olhos de seu Criador. E tão iluminados eram que não bastassem alcançar o próprio êxito, sempre se esforçavam em levar a verdade aos outros. Muitas vezes alcançavam o sucesso, mas o equilíbrio era inevitável para que não houvesse caos, então toda vez que traziam mais um detentor da verdade, nascia no mundo um manipulador ou manipulado. E D-us viu tão alegre se estabelecerem e multiplicarem criaturas semelhantes a Si, que manteve a vida no universo.”
 E essa é a história de como Ele deu vida ao inanimado e de por que existe o senso de “acomodação” na humanidade, somente em alguns momentos atentado pelos detentores da verdade, mas que, logo em seguida às suas revoluções, tudo voltava a se acomodar, pois o equilíbrio é necessário para evitar o caos.