O desejo é um transeunte. Embora ele se origine sempre do mesmo lugar, é altamente mutável e molda-se perante as circunstâncias e as pessoas que as compõem. Não batia mais rápido o coração quando naquela pessoa pensava, parecia mesmo é querer pular pela boca e ganhar vida própria. O desejo é egoísta, só quer saber de realizar-se. Inquieta-me quando transgredido. Inquieta-se. Ganha vida própria.
E é mutável. Mesmo quando impedido por forças que se opõem às pulsões, impõe-se e diz: "Que não seja este, então, mas que seja aquele!", o desejo é transeunte, não tem dono, não tem moradia: tem-se como desejo. E o desejo neste momento era qualquer um, menos aquele que me rejeitou.
No escuro, pouco se viam os rostos, pouco se sentia a pele, o pulsar, a essência. No escuro, latejava o desejo e a cada olhar, uma conexão. E a cada conexão, uma taquicardia. E a cada taquicardia, a involuntariedade. E a cada involuntariedade, a repressão. Reprimia-me. Inquietado, ainda assim reprimia-me.
É o medo da rejeição, o medo do não, o medo até do sim, que seja sim ainda assim talvez lá dentro, lá no fundo, um não. Não que seja baixa autoestima, mesmo, sim, que seja uma falta de auto-segurança, é uma falta de segurança de si, uma insegurança perante o outro, uma força que ainda assim não é tão sim a ponto de encontrar o outro algo que não seja um "não!".
O outro, ser vislumbrado, por mim desejado. Ao lado, mas, não, tão distante. De uma pergunta pode surgir o sim, pode surgir o não, todavia mesmo no talvez restará a frustração.
Um desejo insaciável, algo que nem no outro - dificilmente em mim - será superado. Mas é o desejo que move, mesmo que eu esteja imóvel, rotacionando-se pelo eixo da negação e da frustração. Em algum momento uma força se impõe e logo põe a rotação para a tangente e assim então, mesmo sob o não, haverá um sim ao desejo, à possibilidade de realizá-lo, uma contemplação daquilo que do fundo surge e à superfície dificilmente chegará, exceto no gozo da satisfação. Ahhhhh! O gozo do prazer em dizer que, sim, sou feito de desejos, transeuntes em alvos, mas fixo na origem, pulsante em mim.