domingo, 16 de dezembro de 2012
O Vício Oculto
Insossa. Indolor. Inaudível. Colorida. Fogosa. Estimulante. Pequeno comprimido que um vulto deixou em minha mão em meu momento mais frágil, no meio da multidão e me sentindo sozinho. Pegou minha mão, deu-me uma garrafa d'água e me empurrou goela abaixo.
Insossa, indolor, inaudível, o comprimido desceu pelo meu esôfago, atingiu meu estômago e fora absorvido sem eu nem perceber. Fogosa, estimulante, me causou calor, me fez entrar em hiperatividade, dança, pula, corre, brinca, beija, sorri, ri, grita, senta, não, não senta, pula! Dança! Canta! Corre! Brinca! Beija! Grita! Não para, não para, continua, toma água, senão vai se dissolver em alta temperatura.
Invisível: o vulto deixou em minha mão uma pequena esfera negra nebulosa, fria, ácida. Entrou em minha boca e inflou, tomou forma de uma esfera com inúmeras pontas, feito uma roseta, e desceu pelos meus centros de energia rasgando, fazendo com que jorrassem pequenos rios de energia cristalina brilhante para fora de meu corpo energético.
Dança! Canta! Corre! Brinca! Beija! Grita!
Dança: contorce mais um pouco, espreme o centro de energia e libera-a ainda mais.
Canta: abre a boca e vomita essa força cristalina e brilhante.
Brinca: sorria, ria, abra fortemente seus olhos e deixe que ele expulse essa energia.
Beija: abra seu coração ainda mais, esse centro energético é poderoso.
Grita: estimule-se e expanda a abertura de todos seus cofres de energia.
A esfera enegrecida se divide em inúmeras partículas que se difundem pelo corpo espiritual e causa inúmeras fissuras. Como um homem lacerado, começa a sangrar energia por todo o corpo, além dos centros de força, inúmeros "corações" que bombeiam a energia.
O vulto, antes insensível, indistinguível, agora claramente visível: um velho de cabelos brancos, ulcerado pelo corpo, com marcas profundas na alma, pálido, olhos negros e mortificados, boca seca e cianótica, ausência de vida - o vampiro revelado. Abraça-me e deleita-se com os rios saborosos de fluido vital que jorram de minha alma. Envolve-me com sua neblina enegrecida e capta tudo o que sai de mim. A vida que perco.
Acordo. Provo de um gosto amargo na boca, sinto dores pelo corpo, em especial na cabeça e no estômago, ouço zumbidos nas orelhas, deprimo-me, desejo a morte, contesto a vida.
Vida?
Eu experimentando a morte e o vampiro gozando do banquete de minha vida.
Minha sorte foi que a morte não se tornou um vício, tal qual a vida dos outros é para aquele vampiro moribundo.
