sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Essência do Perfume



O salão era escuro, muitos vultos rodeavam meu corpo e eu dançava alegremente. A música ditava meu movimento e meu corpo era a melodia em carne e osso, e a cada som harmonioso, um pulso forte de energia e felicidade dava maior força à dança.
Quando olhei ao redor novamente, um olhar me encarava, e sorrateiramente me rodeava, acompanhado de um sorriso sincero. E eu prestei atenção. A dança começou a parar, embora a música não parasse de tocar. Ele se aproximou. Eu parei e encarei. Eu o abracei. E nos beijamos.
Aquele dia se foi, e outros vieram. Fizemos história juntos.
Naquele salão onde eu sempre fiquei envolto de penumbras, dançando ao som da música, eu, que penumbra também era, me iluminei aos olhos do rapaz. Deixei-o entrar em minha vida, conhecer minha mente, meus anseios, desejos, medos, eu.
No entanto, por mais que eu me iluminava, o rapaz pouco mudava. Era estranho. Feixes de luz ocasionalmente emanavam daquele ser. No início, vi sua beleza, e pensava "essa paixão vale a pena", e mais eu me iluminava e com ele compartilhava a dança. E os feixes do rapaz continuavam, em pulsos lentos surgindo.
Mas quanto mais o tempo passava, e eu mais me iluminava, e mais os feixes do rapaz surgiam, mais eu começava a vê-lo como um todo. E por mais que a beleza em todo fosse tão atraente, contagiante, naquela alma parecia existir partes podres, que antes nem sequer eu sentira o cheiro, mas agora já era notável. Quis me afastar, não consegui. Os feixes mostraram mais coisas boas, ficara feliz. Mas o cheiro podre continuava.
E quando me sentia confortável, os feixes voltavam a mostrar partes podres, continuações daquelas antes reveladas. E eu, em desespero, me afastava. E o fedor aumentava, e eu, repugnado, queria me manter distante. Esperar conhecer mais da luz que vinha desse rapaz e poder fazer seu perfume delicioso sobrepujar sua podridão inerente a todo ser humano.
E por mais que a alma seja a essência, ela se mancha com a história da vida, e o que eu gostaria de saber é se aquilo era uma mancha alvejável ou se eu jamais voltaria a sentir o perfume não-contaminado daquele rapaz.
Sem saber o que fazer, sem saber o que sentir, dei o beijo final. E escurecido em vultuosidade, em sua frente o fiquei observando, e até hoje observo, ora iluminando-me e dando-lhe um carinho, matando a saudade; ora me afastando, escurecendo e revivendo toda a insegurança e medo daquele cheiro, daquela podridão. Até quando? Não sei. Vou esperar ele por de todo se iluminar, sua essência mostrar e suas manchas limpar, para que eu também de todo para sempre me mostre também, e revele minhas manchas já limpas com o tempo, e assim, juntos, pelo resto da vida, sermos felizes e unirmos nossas luzes e essências.