sexta-feira, 22 de abril de 2011

Minha casa

Eu estava com pressa. Ainda preso no trânsito, há meia hora do consultório, tinha uma tarde completa de consultas a atender. Ser médico é recompensador, não pelo salário - bom em relação a outras profissões, mas ainda insuficiente -, mas pela oportunidade de transformar lágrimas em sorrisos. Todavia, a rotina não é fácil, a cobrança é alta e nem sempre o que temos ao final de uma consulta ou ao final de um dia é só sorrisos.
E eu não estava num dia bom. Chovia, aquele tempo nublado nublava minhas emoções também e a fumaça dos carros acinzentava ainda mais meu mundo. Minha vida era pura cinza.
Anos e anos dedicados aos outros e esqueci-me de mim mesmo. Não sou infeliz, já que imagino ter muita gente sofrendo muito mais que eu por esse mundo afora.
Desisti de ir ao consultório. Dei o sinal, peguei uma rua que me levava para longe desse tumulto de carros e fui para casa. Liguei para a secretária avisando que não poderia atender os pacientes e ela me perguntava, mas Doutor, o que eu vou dizer para os pacientes, e eu respondia que era para falar a verdade, dizer que eu não me sentia bem para atender naquele momento e que atenderia essas pessoas assim que possível. Mas Doutor, os pacientes vão ficar bravos, eu vou dizer que o senhor terá de fazer uma cirurgia de emergência e que em virtude disso não poderá atender! Não minta, não minha, eu disse e me despedi. Certo, não é justo que minha companheira de trabalho tenha de assumir as consequências das minhas falhas, mas também não seria justo mentir e manipular as pessoas as quais tenho tanto carinho, que são meus pacientes.
Eu não queria saber de mais nada. Eu queria me deitar, dormir e acordar só quando estivesse em paz e animado novamente. Mas quando fui me deitar na cama, senti algo sob meu corpo - era uma revista, provavelmente deixada pela minha mãe quando me fez uma visita, ou pela empregada. Uma revista com a capa preenchida por uma casa de campo.
Fechei os olhos ao me deitar e eu estava na fazenda. Não estava sozinho, tinha companheiros que me ajudavam no plantio das hortaliças e frutas, outros que me ajudavam a criar os animais. Minha casa era modesta, de madeira. Simples, mas completa e suficiente. Bonita às minhas vistas, e isso que importa.
Eu estava onde queria estar, livre, feliz. Estava na minha casa, na minha fazenda.
O cheiro do mato, o leve vento carregando-o, os pés na terra, o Sol. O Sol. Enorme, branco, amarelo, muito mais sadio aqui na fazenda, vivo, não vejo mais nada. Eu me deito na grama, na terra e não penso em mais nada, não importa o tempo, não importam os outros - eu estou em casa, na minha casa.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Arte



Por força de hábito, quase começo essa crônica com "Certo dia...", já que é o que me vem à cabeça quando penso em escrever esse tipo de texto. No entanto, é com muito maior frequência que "um certo dia" que, andando pela rua, ou mesmo trancafiado em uma sala, ou sentado no ônibus, ou distraído na biblioteca universitária, simplesmente, da situação em que me encontro, surge na minha mente uma ideia ou um questionamento o qual me faz pensar "nossa, que vontade de escrever sobre isso!".
Alguns momentos da vida permitem que eu consiga satisfazer esse desejo, como ocorreu com aquela crônica do sapato, mas saiba: a vida acadêmica de um estudante de medicina propicia um curto tempo livre, no qual se pode fazer as coisas as quais gosta. No entanto, meu maior prazer é dormir. O segundo, ficar no computador - mesmo sem fazer nada, mas ficar na frente dele. O terceiro, ler. Por fim, escrever.
Não é à toa, portanto, que fico durante o ano letivo tanto tempo sem escrever no meu blog - tanto tempo sem cultivar minha imaginação, satisfazer meus desejos por histórias, mundos, criações que singelas brotam na minha mente e eu, na melhor das intenções, tento colocá-las em letras, palavras, frases conexas e instigantes nos textos os quais escrevo.
Por isso escrevo agora essa crônica, a qual representa mais que eu conseguir arranjar um tempo livre dedicado à escrita; representa, pois, minha necessidade em transcrever um questionamento: onde vai parar tanta criação não escrita, ou não pintada, ou não cantada - tanta arte que não se efetivou?
Minha mente é cruel. Quando imediatamente não utilizo a inspiração criativa e imaginativa que tive para transcrever, ela me faz esquecer a ideia. Não importa quanto tempo eu aguente repetindo palavras-chave que possam me fazer lembrar da inspiração, simplesmente esqueço.
Mas tudo nesse universo é tão perfeito e tão conexo que não consigo acreditar na possibilidade de que essas inspirações, pré-criações, simplesmente são descartadas no vazio. Já disse um sábio que "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", e eu me indago: será que essas ideias artísticas realmente não se perdem, e acabam por se transformar? Ora, neste caso, no que se transformariam?
Pois eu já imagino um outro mundo, o qual foge à nossa visão e demais sentidos, no qual as ideias simplesmente fluem, vagando por entre as pessoas e, quando as pessoas sintonizam-nas mentalmente por algum motivo, ocorre a inspiração e aquela vontade conhecida dos artistas em escrever, pintar, cantar. Todavia, quando não escrevem, pintam ou cantam, e a sintonia se desfaz, as ideias simplesmente voltam a fluir longe da mente de quem as pensou, supostamente torcendo para que outra pessoa sintonize-a novamente e de fato a transforme-a no que toda inspiração deve se tornar: arte.
Tanta metafísica e especulações há nesse mundo que meu único alívio nesse momento é ter escrito essa crônica e satisfeito minha vontade de escrever, e concretizado minha inspiração. Não importa se se eu não escrevesse a ideia iria para o nada, ou para esse mundo de pré-criações que fluem de mente em mente, pois para essa inspiração eu dei o destino que merece: arte.