quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Pedreiro e a sua Pedra



[Antes de mais nada, informo que, ao menos por um ano, este blog nao tera acentuacao ou c cedilha em seus textos, peco a compreensao dos leitores e o esforco em tentar entender o que esta escrito, mesmo que com esse problema.]

Este e um texto diferente dos demais neste blog. Embora todos, em menor ou maior parte, tratem dos meus sentimentos, vivencias, crencas e sonhos, dificilmente eu escrevo falando abertamente sobre eles, pois acredito que a fantasia tem um poder sedutor em aprofundar o contato com a escrita.

No entanto, estou ha meses sem escrever. Aos poucos, sem a pratica, a habilidade de escrever comeca a se perder, ou melhor, a se transformar. Portanto, me sinto obrigado a recomecar a escrita e isso se faz dessa forma, sem firulas e sem figuras de linguagem, sem tanta fantasia. E necessaria a pedra bruta para que possa ser polida e moldada pelo pedreiro. E este texto sera a pedra bruta fundamental deste blog daqui em diante.

Diariamente, enfrentamos sentimentos, vivencias, confrontamos nossas crencas e a representacao dos processos que envolvem isso e o aparelho mental. Nosso aparelho mental, por meio de varios mecanismos, encontra solucoes para continuarmos a viver sem perpetuar ou mesmo aprofundar essas preocupacoes e dificuldades, que poderiam impossibilitar o avanco. De fato, o aparelho mental permite-nos lidar com o passado, de tal forma que o presente nao se prenda a ele e que se possibilite um futuro.

Dentre esses mecanismos de processamento das dificuldades mentais, existe o recalque, ou repressao, e a sublimacao. O recalque e o mecanismo mais primitivo do aparelho mental, e o esquecimento, o deixar o passado no passado. A sublimacao e a transformacao da pulsao - desejo - em algo "palatavel". Nao envolve diretamente a negacao do desejo, mas a mudanca de forma do inaceitavel, pelo aceitavel. Da sublimacao, nasceu a Arte e outras obras humanas. A minha arte e sublimacao, este blog e, para mim, sublimacao.

E isso esta diretamente relacionado ao porque de eu nao ter escrito quase nada por tanto tempo. Tendemos a valorizar um tipo ou um conjunto de mecanismos de defesa do ego em detrimento dos outros. Embora eu possivelmente utilize com frequencia os demais, estou acostumado ao recalque ou a sublimacao. Sao, para mim, como que antitese. Quando estou preparado para enfrentar o que evoca de dentro de mim, eu sublimo. Quando estou fraco, incerto disso, com medo, eu recalco.

Retornar a escrever neste blog e a representacao maior de que retornei a enfrentar meus medos e a dar voz - no caso, escrita - as minhas pulsoes. A forma que elas adotarao tera de ser polida, mas o que importa e que a pedra bruta esta sendo colocada a mostra e a disposicao para o pedreiro trabalhar sua obra.

E tudo isso brotou de um sonho. O aparelho mental e tao desenvolvido que ele tem seus meios proprios de trazer a mostra a necessidade de dar voz e mesmo confrontar os desejos e memorias. Tenho tido uma serie de sonhos poderosos e hoje tive um que me motivou a escrever essa cronica e reiniciar o ciclo de aperfeicoamento da minha mente e consequentemente da forma como meu eu interior se relaciona com o que me cerca.

Sera um prazer compartilhar esse processo com as pessoas que gentilmente se dedicam a ler o que escrevo. Voces poderao compartilhar comigo o processo de transformar a pedra bruta em pedra polida. Espero que seja tao proveitoso para voces, mecenas, tanto quanto e para mim, pedreiro, artista.

domingo, 13 de abril de 2014

O Desejo Transeunte

O desejo é um transeunte. Embora ele se origine sempre do mesmo lugar, é altamente mutável e molda-se perante as circunstâncias e as pessoas que as compõem. Não batia mais rápido o coração quando naquela pessoa pensava, parecia mesmo é querer pular pela boca e ganhar vida própria. O desejo é egoísta, só quer saber de realizar-se. Inquieta-me quando transgredido. Inquieta-se. Ganha vida própria.

E é mutável. Mesmo quando impedido por forças que se opõem às pulsões, impõe-se e diz: "Que não seja este, então, mas que seja aquele!", o desejo é transeunte, não tem dono, não tem moradia: tem-se como desejo. E o desejo neste momento era qualquer um, menos aquele que me rejeitou.

No escuro, pouco se viam os rostos, pouco se sentia a pele, o pulsar, a essência. No escuro, latejava o desejo e a cada olhar, uma conexão. E a cada conexão, uma taquicardia. E a cada taquicardia, a involuntariedade. E a cada involuntariedade, a repressão. Reprimia-me. Inquietado, ainda assim reprimia-me.

É o medo da rejeição, o medo do não, o medo até do sim, que seja sim ainda assim talvez lá dentro, lá no fundo, um  não. Não que seja baixa autoestima, mesmo, sim, que seja uma falta de auto-segurança, é uma falta de segurança de si, uma insegurança perante o outro, uma força que ainda assim não é tão sim a ponto de encontrar o outro algo que não seja um "não!".

O outro, ser vislumbrado, por mim desejado. Ao lado, mas, não, tão distante. De uma pergunta pode surgir o sim, pode surgir o não, todavia mesmo no talvez restará a frustração.

Um desejo insaciável, algo que nem no outro - dificilmente em mim - será superado. Mas é o desejo que move, mesmo que eu esteja imóvel, rotacionando-se pelo eixo da negação e da frustração. Em algum momento uma força se impõe e logo põe a rotação para a tangente e assim então, mesmo sob o não, haverá um sim ao desejo, à possibilidade de realizá-lo, uma contemplação daquilo que do fundo surge e à superfície dificilmente chegará, exceto no gozo da satisfação. Ahhhhh! O gozo do prazer em dizer que, sim, sou feito de desejos, transeuntes em alvos, mas fixo na origem, pulsante em mim.